NOVA YORK — O Brasil já superou sua cota de exportação de carne bovina para a China em 2026, enquanto o Uruguai utilizou pouco mais de 30% do volume autorizado. Nesse cenário, o governo uruguaio autorizou o uso, por empresas brasileiras, do excedente de sua cota, mas a transferência ainda depende da aprovação chinesa.
Dados compilados pela Safras & Mercado mostram que 1,144 milhão de toneladas de carne brasileira chegaram aos portos chineses até agosto, acima do limite brasileiro de 1,106 milhão de toneladas. A cota do Uruguai para exportações sem tarifa extra em 2026 é de 324 mil toneladas. Cerca de 80 mil toneladas poderiam ser destinadas ao Brasil, conforme fontes ouvidas sobre a negociação.
A autorização foi anunciada na segunda-feira (21/9) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, depois de uma reunião com o presidente uruguaio, Yamandú Orsi, em Nova York. Os dois participarão, nesta terça-feira (22/9), da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas.
Lula afirmou que discutiu com Orsi temas da agenda bilateral, com destaque para infraestrutura e comércio agrícola. Também agradeceu a autorização para o aproveitamento do volume uruguaio não utilizado. O governo brasileiro, porém, não informou como a medida será aplicada nem confirmou se haverá uma troca de cotas entre os dois países.
China ainda precisa aprovar a transferência
A administração dos volumes é feita pelo Ministério do Comércio da China (Mofcom), no âmbito da salvaguarda chinesa para proteção da indústria de carne bovina local. No início do ano, Pequim rejeitou um pedido brasileiro para redistribuir cotas não usadas por outros fornecedores.
Uma fonte uruguaia afirmou que existem “boas intenções” entre os governos, mas destacou que o acordo precisa ser aceito pela China. Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, disse que a posição chinesa é determinante para qualquer transferência entre fornecedores.
A negociação vinha sendo discutida havia meses. O Ministério da Agricultura brasileiro havia proposto ao Uruguai uma troca que envolveria a parcela brasileira da cota do Mercosul para exportação de carne bovina resfriada à União Europeia, com tarifa reduzida. Esse mercado está temporariamente fechado por falta de comprovação no controle de uso de antimicrobianos. Não está confirmado se esse formato foi incluído no entendimento anunciado.
Setor prevê efeito restrito em 2026
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) avaliou que ampliar o acesso ao mercado chinês é positivo, mas que o aproveitamento do excedente uruguaio teria efeito limitado em 2026 devido ao tempo necessário para negociar, embarcar e transportar a mercadoria.
Para 2027, a entidade considera que a medida poderia ser mais relevante. A expectativa é de que a cota se esgote mais cedo no ano que vem, provavelmente em abril. A cota brasileira para 2027 é de 1,128 milhão de toneladas, e a Abiec defende previsibilidade e mecanismos para distribuir os embarques ao longo do ano.
O Uruguai ainda pode vender mais de 200 mil toneladas para a China até dezembro. O governo brasileiro não divulgou detalhes da negociação. Os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços não se posicionaram, e a Secretaria de Comunicação da Presidência da República não respondeu até o fechamento da edição.








