A oferta de creches se tornou um dos principais temas da disputa pelo governo de Pernambuco. O número de menções à palavra nos planos de governo passou de três, em 2018, para 28, em 2026, repetindo o patamar registrado em 2022.
A rede pública atende 32,5% das crianças de 0 a 3 anos no estado, conforme a Secretaria Estadual de Educação. O índice está abaixo da meta mínima de cobertura, de 48,4%. Seis dos sete candidatos ao governo em 2026 incluíram o assunto em seus programas. Victor Assis (PCO) foi o único a não usar o termo.
Raquel Lyra (PSD) apresentou o plano com mais menções: 11. Entre as propostas estão a construção e o equipamento de 250 creches, a abertura de 60 mil vagas e o investimento previsto em quase R$ 2 bilhões. O programa também prevê apoio técnico às prefeituras, integração com políticas de autonomia financeira para mulheres e criação de um banco estadual de imóveis públicos.
João Campos (PSB) propõe novas unidades, apoio aos municípios e a integração de creches a parques, praças, áreas verdes, escolas e Centros Comunitários da Paz. Os demais candidatos também incluíram medidas como expansão da rede, atendimento em tempo integral, prioridade para áreas rurais e periferias e criação de uma Secretaria Executiva da Primeira Infância.
Mulheres ampliaram a presença do tema
Em 2018, apenas três dos sete candidatos citavam creches nos programas. Eram as candidatas Ana Patrícia Alves (PCO), Dani Portela (PSOL) e Simone Fontana (PSTU). A cientista política Marcelle Amaral relaciona a presença do assunto às experiências pessoais e às demandas familiares, enquanto a pedagoga Catarina Gonçalves aponta a pressão das famílias por vagas e a maior centralidade da primeira infância no debate público.
Em 2022, Cláudia Ribeiro (PSTU), Marília Arraes e Raquel Lyra concentraram 20 das 28 menções ao tema. Raquel, que foi eleita governadora, citou a palavra 11 vezes, contra seis de Marília. Naquele pleito, a então candidata prometeu construir 250 creches em quatro anos e abrir 60 mil vagas.
De acordo com a Secretaria Estadual de Educação, 15 Centros de Educação Infantil foram inaugurados em pouco mais de três anos e meio de gestão, com 4.374 vagas criadas pelo Programa Juntos pela Educação. A primeira unidade construída foi a Creche Tia Nicinha, em Igarassu, inaugurada em dezembro de 2025. Cada obra custou, em média, R$ 5 milhões, e as escolas atendem cerca de 300 crianças.
O governo estadual informou que pretende concluir 100 novas creches até o fim deste ano. Pelo modelo adotado, o estado constrói e equipa as unidades, enquanto os municípios assumem a gestão pedagógica e administrativa após a conclusão. No primeiro ano, o estado repassa recursos para a manutenção; depois, as escolas passam a ser mantidas pelo governo federal por meio do Fundeb.
Vagas e condições de atendimento
A Constituição Federal de 1988 define creche e pré-escola como direitos da população e atribui aos municípios a responsabilidade direta pela oferta. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, promulgada em 1996, estabeleceu a educação infantil como a primeira etapa da educação básica. As creches atendem crianças de até 3 anos, e as pré-escolas, alunos de 4 e 5 anos.
Dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025 mostram que apenas 23,2% das escolas de educação infantil em Pernambuco tinham todos os itens considerados importantes para a infraestrutura básica. Em 20,4% havia parque infantil, 72,2% contavam com material pedagógico infantil, 39,7% tinham área verde e 60,4% possuíam biblioteca ou sala de leitura.
No Recife, a Secretaria de Educação informou que a oferta de vagas em creches passou de cerca de 6.400 para 19 mil crianças atendidas nos últimos cinco anos. Segundo a pasta, a cidade alcançou cobertura de 42% das crianças de 0 a 3 anos. A secretaria negou a existência de rodízio na Creche Escola José de Souza Ferraz e afirmou que houve apenas uma situação pontual causada por falta de água no bairro.
Em Jaboatão dos Guararapes, a vigilante Katiele Monteiro relatou problemas no Centro Municipal de Educação Infantil Marcos Freire, onde o filho foi matriculado. Segundo ela, a unidade não tem parque nem biblioteca. No início deste ano, pais e mães denunciaram mofo, falta de capinação e aulas canceladas. A escola chegou a funcionar com turmas em contêineres do lado de fora.
A disputa sobre a quantidade e a qualidade das creches também apareceu nas eleições municipais de 2024 e nas redes sociais de João Campos e Raquel Lyra. O tema é apresentado por aliados dos dois lados como forma de comparar obras, vagas e condições das unidades de educação infantil.







