A atuação de Paulo Guedes na OnilX ocorreu antes de a empresa deixar de honrar resgates de investidores em criptomoedas. O ex-ministro da Economia dava palestras e consultorias, recebia potenciais clientes e tinha a imagem utilizada em materiais publicitários do grupo, que prometia rendimentos de até 2,8% ao mês.
A OnilX foi suspensa pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no início deste ano por oferecer valores mobiliários sem autorização. A empresa também é alvo de ações judiciais em Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe, Alagoas e Pará. A apuração identificou 108 processos contra o grupo entre 12 de junho e 10 de setembro.
Investidores afirmam que não conseguem recuperar os recursos aplicados em criptoativos e stablecoins, embora a empresa divulgasse a possibilidade de resgates com alta liquidez. Alguns deles levantaram a suspeita de que o negócio funcionaria como uma pirâmide financeira.
Participação de Guedes
Embora não apareça no quadro societário da OnilX, Guedes participou de reuniões estratégicas com parceiros e de eventos ligados à empresa. Em dezembro passado, uma publicação da companhia o mostrou ao lado de Fábio Lino, dono do grupo, e de executivos da Visa. A legenda descreveu o encontro como uma reunião estratégica para discutir o uso de stablecoins no cotidiano e afirmou que o ex-ministro oferecia suporte e visão à companhia.
Um casal que processa a OnilX para recuperar R$ 876.513,00 informou ter ampliado os aportes depois de se reunir com Guedes na sede da empresa, em abril deste ano. Quatro meses depois, em agosto, os investidores tentaram sacar os recursos, mas não conseguiram.
Em outro processo, uma empresa cobra o resgate de R$ 632.183,33 aplicados por meio da OnilX. Mensagens apresentadas na ação mostram uma assessora usando a presença de Guedes no escritório da empresa em São Paulo, na Faria Lima, como argumento para convencer o cliente a investir. Ela também mencionou a possibilidade de reuniões com o ex-ministro para tratar de estratégias em aportes acima de três milhões, quatro milhões e cinco milhões.
Não há registros do conteúdo das reuniões privadas entre Guedes, Fábio Lino e possíveis investidores. Em uma palestra para uma plateia de quase 500 pessoas, porém, o ex-ministro elogiou a posição da OnilX no mercado digital e afirmou que os participantes estavam de parabéns.
Guedes não aparece como sócio da empresa. Procurado para explicar sua relação com a OnilX, não se manifestou. Fábio Lino também não informou os termos da contratação nem respondeu sobre os processos judiciais.
Ordem da CVM
Em 12 de janeiro de 2026, a Superintendência de Relações com o Mercado e Intermediários da CVM editou o Ato Declaratório nº 24.680 e determinou a suspensão imediata da oferta pública de serviços de intermediação de valores mobiliários pela OnilX, sob pena de multa diária.
A autarquia concluiu que o grupo não tinha autorização para intermediar valores mobiliários, atuar como assessor de investimentos ou captar recursos. Pareceres técnicos apontaram a oferta de contratos com promessa de rentabilidade fixa diária ou mensal e operações de arbitragem em moedas estrangeiras no mercado de balcão. Para a CVM, essas características configuram Contratos de Investimento Coletivo sujeitos à regulação federal.
A advogada Anne Caroline Marciquevik passou a representar a OnilX em reuniões com a CVM na tentativa de derrubar a suspensão. Ela foi assessora especial de Guedes durante o governo de Jair Bolsonaro e atualmente intermedeia contratos e palestras do ex-ministro.
Desde a ordem da autarquia, Anne Caroline Marciquevik participou de seis reuniões com autoridades da CVM, conforme dados da Agenda Transparente, da ONG Fiquem Sabendo. Em 1º de abril, o Colegiado da CVM rejeitou, por maioria de votos, o pedido de revogação apresentado pela empresa.
Na mesma decisão, o colegiado aceitou por unanimidade esclarecer que a proibição não inclui a intermediação simples de criptoativos como Bitcoin, Ethereum e USDT quando não houver promessa de rendimento ou contrato de investimento.
A OnilX afirma, em nota publicada em seu site, que é regular e confiável, tem CNPJ ativo, sede no Brasil e cerca de cinco anos de atuação no mercado de ativos virtuais. A empresa diz oferecer compra, venda, troca, intermediação e custódia de criptomoedas.
Segundo a companhia, a decisão da CVM se limita a operações que possam ser consideradas oferta ou intermediação de valores mobiliários. A OnilX sustenta ainda que não administra investimentos, não promete rentabilidade fixa e não oferece contratos de investimento coletivo.








