BRASÍLIA — Sanções contra pessoas e empresas, exigências diplomáticas e pressão sobre o debate público estão entre os fatores que levaram a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) a elevar o risco de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026 ao nível de criticidade.
A avaliação consta do relatório reservado “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”, encaminhado à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça no fim de agosto. O documento aponta uma tendência de aumento da pressão do governo de Donald Trump sobre o Brasil e relaciona essas ações a uma estratégia de reposicionamento político dos Estados Unidos na América Latina.
A Abin não afirma que houve manipulação das urnas ou alteração do resultado eleitoral. O alerta trata da possibilidade de que medidas políticas, econômicas e diplomáticas afetem o ambiente institucional e o debate público durante o processo eleitoral.
Pressão econômica e diplomática
Na análise da agência, as ações americanas passaram a produzir efeitos mais diretos depois das sanções anunciadas em julho contra dois brasileiros e empresas sediadas no Brasil e em Portugal. As pessoas e companhias foram acusadas pelo governo estadunidense de manter vínculos com redes de lavagem de dinheiro relacionadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
O relatório classifica esse movimento como uma “mudança de fase”. A avaliação é que sanções podem atingir relações financeiras, reputação empresarial, acesso ao dólar e operações internacionais, além de expor terceiros a riscos de medidas semelhantes.
A Abin também cita a tentativa de enquadrar organizações criminosas brasileiras como terroristas. Para a agência, a estratégia americana ocorre de maneira gradual, combinada e adaptativa, associando organizações brasileiras a ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos e adotando medidas com impacto potencial sobre empresas, bancos e outras instituições.
Disputa por influência na região
O relatório situa a política do segundo governo Trump em uma tentativa de reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos na América Latina. Documentos estratégicos divulgados entre novembro de 2025 e maio deste ano indicariam objetivos como reduzir a influência de potências rivais e impedir o acesso delas a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas da região.
A China aparece como um dos principais alvos. Conforme a avaliação da Abin, Washington busca ampliar o controle direto ou indireto sobre esses recursos por meio do governo dos Estados Unidos ou do capital privado do país.
A agência dá atenção à atuação de Marco Rubio, secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional dos EUA. Segundo o relatório, Rubio procura influenciar a política externa dos países latino-americanos e apoiar a ascensão de governos conservadores.
Em audiência no Senado estadunidense, em junho, Rubio afirmou que diversos governos “amigáveis” aos Estados Unidos haviam surgido na região durante o segundo mandato de Trump. Ele apontou Brasil, Colômbia, Cuba, Nicarágua e Venezuela como exceções.
Exigências para o processo eleitoral
O documento registra ainda que, em negociações realizadas em 2025, o governo Trump apresentou ao Brasil uma minuta de declaração conjunta. A proposta previa que o país não detivesse, prendesse ou limitasse “arbitrariamente” a participação de “dissidentes políticos” nas eleições e assumisse o compromisso de realizar um pleito “livre e justo”.
Em entrevista nesta quinta-feira (17), Luiz Inácio Lula da Silva disse que a proposta se tornou “arquivo morto” para o governo brasileiro. O presidente também rejeitou a possibilidade de dar aos Estados Unidos prioridade no acesso às riquezas minerais do país.
Na avaliação da Abin, o Brasil ocupa uma posição específica na estratégia americana por ter um governo com disposição política e meios para defender sua autonomia estratégica diante das pressões por concessões e realinhamento geopolítico. O relatório afirma que, mesmo após períodos de distensão entre Lula e Trump, medidas adotadas desde maio indicam aumento da pressão sobre o país.








