SÃO PAULO — O empresário Renato Araújo, de Angra dos Reis, ganhou espaço no entorno da família Bolsonaro ao mesmo tempo em que sua construtora passou a ser investigada em um esquema de obras em escolas públicas do Rio de Janeiro. Próximo do senador Flávio Bolsonaro, ele participou de atos políticos na Avenida Paulista e organizou, em Angra dos Reis, eventos de apoio à candidatura do senador e à própria campanha para deputado federal.
Araújo tem 40 anos e é coordenador regional do Partido Liberal na Costa Verde desde maio de 2025. A função foi atribuída a ele por Jair Bolsonaro e pelo presidente nacional da legenda, Valdemar da Costa Neto. No ato de 7 de Setembro, em São Paulo, ele apareceu ao lado de Nikolas Ferreira, Tarcísio de Freitas, Lucas Pavanato, Guilherme Derrite e Alfredo Gaspar. Também permaneceu próximo de Flávio Bolsonaro durante o evento, que reuniu 28 mil pessoas.
A proximidade provocou incômodo entre antigos aliados de Flávio, segundo um amigo da família. No dia 29 de agosto, Araújo promoveu em Angra dos Reis uma motociata e uma carreata de barcos para apoiar a campanha do senador e fortalecer sua própria candidatura. Em 2024, ele havia sido derrotado na disputa pela prefeitura de sua cidade.
Investigação sobre contratos de escolas
Em agosto, a Operação Sarasvati, da Polícia Civil, cumpriu 20 mandados de busca e apreensão em sete cidades do Rio de Janeiro, incluindo Angra dos Reis. Entre os alvos estava a Bravo Construções, fundada por Araújo em 2011 e atualmente registrada em nome de sua esposa, Tainá Nóbrega de Souza. Até o ano passado, ele assinava como diretor-geral da empresa.
A investigação apura supostas fraudes na execução de reformas em escolas estaduais. De acordo com os depoimentos reunidos no caso, a Secretaria Estadual de Educação direcionava contratos para um grupo de empreiteiras selecionadas. Diretores afirmaram que eram pressionados a contratar essas empresas e que os serviços determinados muitas vezes não correspondiam às necessidades das unidades.
A Bravo recebeu R$ 16 milhões para realizar reparos em 15 escolas. Em três unidades visitadas entre outubro de 2025 e janeiro de 2026, um relatório do gabinete do deputado estadual Flávio Serafini apontou problemas nos serviços e diferenças entre as demandas apresentadas pelas escolas e as obras executadas.
No Colégio Estadual Antonio da Silva, em Nova Iguaçu, a direção havia solicitado uma reforma hidráulica para reduzir alagamentos. A intervenção definida pela secretaria foi a substituição de telhas e madeiramento. As telhas foram retiradas, lavadas e recolocadas, com custo de R$ 800 mil. Outras intervenções elevaram o total para R$ 2,2 milhões.
No Colégio Embaixador Raul Fernandes, em Niterói, a solicitação era o conserto de uma parede no banheiro. A obra contratada foi uma reforma de telhado, com custo de R$ 1,6 milhão. A unidade tem nove salas de aula e 155 alunos. Segundo o relatório, a Bravo terceirizou o serviço, procedimento que não é permitido pela legislação estadual em contratos sem edital de licitação.
Já no Colégio Estadual Albert Sabin, em Campo Grande, no Rio de Janeiro, havia uma determinação do Ministério Público Estadual para a ampliação do refeitório. A obra executada foi uma reforma na cozinha e nos banheiros, com a troca de quatro portas e a pintura de duas paredes. O serviço custou R$ 377,8 mil e foi realizado entre setembro e outubro de 2025.
Repasse de recursos e conexões políticas
O mecanismo usado nos contratos era a transferência de recursos da Secretaria Estadual de Educação para as Associações de Apoio à Escola. O modelo permite a realização de pequenos reparos sem licitação. Dados levantados pelo gabinete de Serafini mostram que os valores anuais passaram de cifras entre R$ 58,6 milhões e R$ 102,8 milhões, no período de 2018 a 2020, para R$ 630,2 milhões em 2024 e R$ 513,3 milhões em 2025.
Serafini afirmou que as investigações apontam possível direcionamento de contratos, valores acima dos serviços realizados e uso das obras para lavagem de dinheiro. A denúncia apresentada pelo deputado motivou apurações da Polícia Civil e da Polícia Federal. O Tribunal de Contas do Estado determinou, em abril, a interrupção dos pagamentos às empresas envolvidas.
O governo estadual informou que o contrato para execução das obras em colégios foi encerrado e que, ao longo de 2026, não houve repasses para obras escolares às empreiteiras investigadas. A Secretaria Estadual de Educação também anunciou uma revisão dos procedimentos e citou a Lei de Licitações 14.133 como parâmetro, além de transferir intervenções maiores para a Empresa de Obras Públicas do Estado.
A secretária de Educação no período de aumento dos repasses era Roberta Barreto. Segundo as investigações, ela foi indicada pelo então presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, aliado de Cláudio Castro. Bacellar está preso desde março de 2026. Ele também foi preso em dezembro do ano anterior por suspeita de vazamento de informações sigilosas.
A operação Unha e Carne levou à prisão do deputado estadual Thiago Rangel, apontado como envolvido no esquema das escolas. Também houve novo mandado contra Bacellar e prisão de Rui Bulhões, ex-chefe de gabinete do deputado. As medidas foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. As investigações continuam.
Relação com a família Bolsonaro
Araújo aproximou Bacellar de Jair Bolsonaro e o levou à casa do ex-presidente em Angra dos Reis. Antes da prisão de Bacellar, ele era apontado como candidato apoiado pela família Bolsonaro ao governo do Rio de Janeiro, enquanto Araújo seria candidato a vice-governador. Depois, o nome de Douglas Ruas passou a ser considerado para a disputa.
A relação entre Araújo e Bolsonaro se fortaleceu após uma reforma na casa do ex-presidente, na Vila Histórica de Mambucaba. O empresário admitiu ter cedido funcionários da Bravo para o serviço e afirmou que apenas supervisionou a obra. Um contrato não assinado localizado pela Polícia Federal indicava custo de R$ 900 mil e previa troca de piso e esquadrias, abertura de paredes, reconstrução de muro, pintura e conserto do telhado. Bolsonaro afirmou ter pago a reforma com recursos próprios.
Araújo também é sócio-administrador da Bellavista Portogalo Empreendimentos, projeto de condomínio com 31 mansões em um terreno de 320 mil metros quadrados em Angra dos Reis. O empreendimento inclui 8 mil metros quadrados em terreno de marinha. Flávio Bolsonaro é relator, no Senado Federal, da PEC das Praias, que trata da transferência desse tipo de área para estados, municípios e particulares.
O projeto imobiliário foi associado a denúncias de degradação ambiental, embargo da prefeitura, risco de deslizamento e alteração não autorizada no regime de ocupação de parte do terreno. Um inquérito criminal foi arquivado em 2023, enquanto outro, de natureza cível e ambiental, seguia aberto no Ministério Público.
Na declaração apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral, Araújo informou R$ 3,5 milhões em bens. A lista inclui dois apartamentos, dois automóveis e dois jet-skis. Ele costuma aparecer em registros com integrantes da família Bolsonaro e publicou uma mensagem de aniversário para Flávio na qual o chamou de amigo e irmão.
Araújo não respondeu ao pedido de entrevista, e Flávio Bolsonaro também não se manifestou. O empresário publicou vídeos afirmando que o país vive um momento de guerra e que seu grupo defende a família, a liberdade e o crescimento do Brasil.








