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A rede evangélica que ampliou a influência política de Michelle Bolsonaro

Lideranças religiosas próximas ajudaram a moldar a atuação de Michelle entre o conservadorismo, a política e a teologia do domínio.

A rede evangélica que ampliou a influência política de Michelle Bolsonaro

Michelle Bolsonaro ampliou sua influência política a partir da aproximação com lideranças evangélicas que atuam entre religião, conservadorismo e participação no poder público. A ex-primeira-dama, que disputa seu primeiro cargo eletivo ao Senado aos 44 anos, passou de uma presença discreta no governo a uma das principais referências do campo bolsonarista entre mulheres evangélicas.

Nas manifestações de 7 de Setembro, Michelle não compareceu aos atos sob a justificativa de que precisava cuidar do marido, Jair Bolsonaro. No Instagram, porém, homenageou o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, chamado por ela de “ungido” e “escolhido por Deus”. Também publicou uma mensagem com o bispo Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, pedindo orações para que o Brasil tivesse um “verdadeiro despertamento espiritual”.

Da campanha ao PL Mulher

A construção dessa imagem ganhou força na campanha presidencial de 2022. A equipe de Jair Bolsonaro identificou em Michelle uma forma de alcançar mulheres evangélicas, grupo considerado mais resistente ao bolsonarismo. A partir de agosto daquele ano, ela passou a participar de diversos eventos e associou a candidatura do marido a um propósito religioso de libertação nacional.

Em um discurso realizado dois dias depois do primeiro turno, quando Luiz Inácio Lula da Silva já apresentava vantagem sobre Bolsonaro, Michelle comparou a eleição a uma disputa entre a luz e as trevas e pediu que as igrejas assumissem posição no segundo turno. A atuação contribuiu para sua entrada na política e para a expansão do PL Mulher, ala do partido voltada a encontros de mulheres conservadoras, nos quais política e religião aparecem ao lado de temas como família e cuidado.

A trajetória também se conecta à eleição de 2018. Antes daquele pleito, o pastor José Wellington Bezerra visitou a casa de Bolsonaro e declarou que o então candidato era o único a falar a linguagem dos evangélicos. Michelle ainda era pouco conhecida e não apareceu nas fotos divulgadas da visita.

Em 2026, com Bolsonaro em prisão domiciliar, Flávio Bolsonaro foi escolhido pelo pai para disputar a Presidência. O senador buscou apoio em diferentes denominações e começou pela igreja de José Wellington. O pastor manifestou apoio à candidatura, mas uma disputa envolvendo Priscila Costa, deputada federal, sobrinha-neta do religioso, vice-presidente do PL Mulher e aliada de Michelle, abriu uma crise na pré-campanha.

Michelle gravou um vídeo criticando o enteado depois que se tornou público um pedido de dinheiro feito por Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg realizada no final de junho apontou queda de 10 pontos percentuais entre mulheres e de oito pontos entre eleitores que se identificam como evangélicos. Flávio pediu desculpas e chegou a considerar Priscila para a vice, mas a indicação não foi concretizada.

Igrejas e conselheiros

No Rio de Janeiro, Michelle frequentou a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, liderada por Silas Malafaia, que celebrou seu casamento com Bolsonaro em 2015. Em 2016, após desentendimentos entre o pastor e Jair Bolsonaro, ela passou a frequentar a Igreja Batista Atitude, do pastor Josué Valandro Júnior. Michelle atuava como intérprete de Libras nos cultos de domingo, e sua casa recebeu uma célula para crianças surdas, exceto durante a recuperação de Bolsonaro após a facada.

Depois da mudança para Brasília, a distância reduziu sua proximidade com Valandro. Michelle passou a frequentar a Comunidade das Nações, do pastor JB Carvalho, e a Sara Nossa Terra, de Robson Rodovalho, que já foi deputado federal. Entre suas amigas estão a senadora Damares Alves e a bispa Dirce Carvalho, mulher de JB. Dirce organiza conferências de liderança para mulheres cristãs com a proposta de governar todas as áreas da vida. Esses encontros já reuniram mais de 15 mil mulheres e tiveram a participação de Michelle.

Também fazem parte desse círculo os pastores Renê Terra Nova e Valnice Milhomens. Terra Nova lidera a filial brasileira da International Coalition of Apostolic Leaders, organização fundada em 1999 nos Estados Unidos por John P. Kelly, sob a presidência de C. Peter Wagner. Valnice, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, afirmou em vídeo que os evangélicos devem tomar o poder no Brasil.

A pesquisadora Pietra Cretella afirma que Robson Rodovalho assumiu parte do papel antes exercido por Silas Malafaia como conselheiro de Michelle. Ela também menciona encontros com a coach Obii Pax-Harry, ligada à Brazil Apostolic Conference, do apóstolo Renê Terra Nova.

Obii disse que mantém contato com o Brasil há 15 anos e que passou uma semana com Michelle pouco antes da publicação do vídeo contra Flávio. A pastora, que fundou em Abuja uma escola de Governo e Política, afirmou que não é mentora, conselheira ou instrutora da ex-primeira-dama e que não possui relação formal de trabalho com ela.

Teologia do domínio

Pastores e pesquisadores relacionam parte desse ambiente à teologia do domínio, corrente que defende a participação dos cristãos em diferentes áreas da sociedade, incluindo governo, educação, família, mídia, entretenimento e negócios. Esses campos são descritos como os sete montes de influência.

Para o pastor Sérgio Dusilek, a convivência de Michelle com igrejas que adotaram um discurso de ocupação do poder político contribuiu para sua aproximação com esse ideário. A pesquisadora Christina Vital ressalta, porém, que a teologia do domínio não explica sozinha a atuação de evangélicos na política nem deve apagar interesses pessoais, econômicos, políticos e partidários.

Segundo Fábio Py, doutor em Teologia, Michelle articula textos bíblicos com a inserção política contemporânea e possui uma formação religiosa que a diferencia de outros integrantes do bolsonarismo. Pietra Cretella afirma que a ex-primeira-dama costuma mobilizar ideias como a divisão entre bem e mal, a referência a Deus, a vitimização e a autoridade moral.

Uma pesquisa do Instituto de Estudos da Religião associa Michelle a valores positivos entre mulheres evangélicas, como exemplar, cristã virtuosa, elegante e forte. O relatório afirma que sua imagem de mulher, mãe, esposa e cristã transforma experiências pessoais em referências políticas para temas como família e nação.

Damares Alves declarou que não defende domínio religioso sobre o Estado, mas a participação democrática dos cristãos na vida pública. Também afirmou que Michelle conquistou espaço próprio no movimento conservador brasileiro, especialmente entre as mulheres, e defendeu a presença de lideranças femininas na política.

Para Christina Vital, Michelle não é apenas porta-voz de outras lideranças e tem força política própria. A avaliação dos pesquisadores é que sua comunicação religiosa se tornou um dos principais instrumentos de atuação política e ampliou sua influência no campo conservador, inclusive nas disputas internas do grupo ligado à família Bolsonaro.

Texto produzido pela Redação Trilha Econômica com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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