CIDADE DO CABO — A aprovação de um terreno para a instalação de dois data centers na Cidade do Cabo expôs a falta de regras específicas para empreendimentos hyperscale na África do Sul. Os projetos, associados em documentos à Equinix, podem exigir grandes volumes de água e eletricidade, enquanto a legislação local permite que sejam avaliados como instalações industriais ou armazéns.
O pedido foi apresentado pela King Air Industria, parque industrial e logístico, ao Tribunal Municipal de Planejamento. A Equinix negou ter apresentado um pedido de planejamento para um data center, mas registros oficiais mostram que representantes da empresa se reuniram pelo menos três vezes com autoridades municipais para tratar dos planos.
A empresa também não respondeu às perguntas sobre os recursos necessários para as instalações. Nos documentos do processo, a King Air informou que os dados seriam apresentados em uma etapa posterior do planejamento.
Pressão sobre água e eletricidade
O Legal Resources Centre (LRC), organização da sociedade civil que contestou a construção de um dos empreendimentos, estimou que os dois data centers poderiam consumir cerca de 4,4 bilhões de litros de água por ano caso usassem resfriamento convencional por evaporação. O volume equivaleria a quase 11 milhões de litros por dia, ou ao consumo diário de 68.500 moradores da cidade, conforme a referência média local.
A demanda foi analisada em uma cidade que esteve próxima do chamado Dia Zero durante a seca de 2018. O termo se referia à previsão de fechamento dos registros de água de residências e estabelecimentos comerciais por causa do baixo nível dos reservatórios.
Documentos apresentados ao tribunal indicam que o sistema poderia demandar cerca de 174 MVA. A professora Chantelle van Staden, da Universidade de Stellenbosch, estimou que o consumo anual poderia ficar entre 1,4 e 1,5 bilhão de kWh se as instalações operassem de forma contínua perto desse nível. Segundo ela, o volume seria equivalente ao consumo anual de eletricidade de 250 mil moradias da Cidade do Cabo.
A Equinix já havia pago encargos de rede compartilhada para 160 MVA de capacidade, no valor de cerca de 2 milhões de dólares. A prefeitura afirmou que seu Departamento de Energia havia concluído haver fornecimento suficiente e que alguns detalhes técnicos seriam avaliados posteriormente.
Tribunal aprovou terreno com divergência
A autorização do uso do terreno ocorreu em julho. Wally Johnstone, integrante do painel do tribunal, foi o único dos cinco membros a votar contra a aprovação. Na reunião de 14 de julho de 2026, ele afirmou: “A maioria de nós não sabe o que é necessário em termos de demanda de água e eletricidade”.
A prefeitura negou que o projeto tenha sido aprovado sem avaliação adequada. O LRC afirmou que a objeção ocorre em um cenário de restrições de terra, água e energia na cidade.
A discussão também envolve comunidades próximas ao local proposto. Khayelitsha e Langa ficam a menos de 10 quilômetros dos futuros data centers e são descritas nos documentos como comunidades populosas e predominantemente pobres.
Após quatro anos de investigação, a Protetora Pública Kholeka Gcaleka concluiu, em junho, que a Cidade do Cabo não havia fornecido serviços básicos adequados aos moradores dessas áreas, incluindo água, saneamento e eletricidade. As falhas foram classificadas como má administração e prejuízo.
A prefeitura atribuiu os problemas a restrições orçamentárias, déficits acumulados de infraestrutura e demandas concorrentes. A Protetora Pública reconheceu as pressões financeiras, mas afirmou que elas não afastavam as obrigações constitucionais do município.
Regulação trata hyperscale como armazém
A África do Sul tem 64 data centers em operação e outras dez unidades planejadas, segundo o diretório Data Centre Map. O país, porém, não possui uma política nacional específica para esse tipo de instalação. Na Cidade do Cabo, também não há uma categoria própria de uso do solo para data centers hyperscale.
A prefeitura informou que essas unidades costumam ser enquadradas como empreendimentos comerciais ou industriais. Com isso, podem ser avaliadas pelas regras aplicadas a instalações industriais ou armazéns.
Johnstone classificou esse enquadramento como inadequado. Chantelle van Staden e Grant Oosterwyk, professor da Universidade da Cidade do Cabo, também apontaram diferenças entre um armazém convencional e uma instalação com alta demanda de energia, sistemas industriais de resfriamento, geradores a diesel e circulação contínua de veículos pesados.
Oosterwyk afirmou que tratar uma estrutura de 100 MW como um armazém cria um descompasso entre a categoria regulatória e a infraestrutura construída.
Outros projetos estão em análise
Brett Herron, integrante da Assembleia Legislativa da Província do Cabo Ocidental, afirmou que a cidade avalia outros projetos hyperscale. Entre eles estão a expansão de 60 MW da Teraco e o Cosmas Data Cities, do Cavaleros Group, com capacidade anunciada de 360 MW.
Somados ao projeto associado à Equinix, os empreendimentos poderiam alcançar aproximadamente 580 MW, segundo a estimativa de Herron. Com base em informações públicas, ele calculou que a capacidade seria equivalente a cerca de 35% da atual demanda máxima de eletricidade da Cidade do Cabo.
O vice-prefeito Eddie Andrews disse que a cidade aprovou cinco data centers e analisa outros dois. A prefeitura não divulgou as empresas responsáveis, alegando a Lei de Proteção de Informações Pessoais. Também não explicou por que a legislação impediria a divulgação das cargas de energia dos projetos.
Lance Greyling, diretor de Desenvolvimento Econômico e Investimentos, confirmou três reuniões com a Equinix entre julho de 2025 e junho de 2026. Segundo ele, a empresa informou sua intenção de investir em data centers na cidade, discutiu o empreendimento proposto e apresentou uma atualização do planejamento. Não foram registradas atas dos encontros.
Durban também avalia data center de inteligência artificial
A metrópole eThekwini, que abriga Durban, informou que seu plano urbanístico não define uma categoria específica para data centers hyperscale ou de inteligência artificial. A administração ainda avalia como regulamentar as demandas de infraestrutura.
Em abril, o conselho municipal autorizou um acordo com o Korean South Power Consortium para estudar um data center de inteligência artificial em um terreno municipal na região sul de Durban. Documentos estimam custo entre US$ 3 bilhões e US$ 10 bilhões e indicam que a prefeitura forneceria o terreno e a infraestrutura.
As necessidades de água e eletricidade ainda não foram determinadas. O vereador Andre Beetge afirmou que um relatório municipal não aborda adequadamente a trajetória da demanda de energia associada a data centers de inteligência artificial.








