Empresas de biotecnologia agrícola precisam obter autorização da China antes de lançar no Brasil novas tecnologias para soja e milho destinadas à exportação. O país asiático é o principal comprador da soja brasileira e exige que os eventos transgênicos presentes nas cargas importadas já tenham sido aprovados por suas autoridades.
A diferença entre os prazos de análise tem pressionado o setor por maior coordenação entre os sistemas regulatórios. De acordo com Catharina Pires, diretora de germoplasma e biotecnologia da CropLife Brasil, a China leva, em média, de quatro a seis anos para aprovar novas tecnologias. No Brasil, o prazo médio é de dois anos.
Empresas chinesas ampliam presença
A discussão ganhou força com a entrada no mercado brasileiro de empresas chinesas como DBN Biotech, LongPing e KingAgroot. A chegada é considerada positiva por representantes da cadeia produtiva, mas ocorre enquanto companhias que já operam no país aguardam há anos decisões de Pequim sobre tecnologias aprovadas no Brasil.
No país, a avaliação de segurança de uma nova biotecnologia agrícola é feita pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). O processo considera possíveis efeitos sobre o ambiente, a saúde humana e animal e a produção agrícola. Para produtos como soja e milho, porém, a aprovação brasileira precisa ser acompanhada pelo aval dos principais compradores internacionais.
A CropLife Brasil defende cooperação regulatória e diálogo entre os órgãos dos dois países. A entidade trabalha com o governo federal para incluir o tema nas discussões bilaterais. O principal fórum de diálogo é a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban), que reúne os vice-presidentes de China e Brasil. Um grupo de trabalho da comissão trata do assunto.
A entidade tem, hoje, duas empresas controladas por chineses entre suas associadas: LongPing e Syngenta. Executivos e especialistas evitam afirmar que a regulação chinesa tenha motivação geopolítica, embora exista preocupação com possíveis disputas estratégicas decorrentes das diferenças entre os sistemas.
Bayer aguarda autorização para milho
A Bayer, líder do mercado de soja transgênica no Brasil, aguarda há cerca de quatro anos a aprovação chinesa do Lep 4 stack. A tecnologia de milho foi autorizada para uso comercial no Brasil desde 2024, e a companhia afirma ter respondido a mais de oito rodadas de questionamentos técnicos.
José Barioni, líder de sementes e biotecnologia da divisão agrícola da Bayer para a América Latina, afirma que a diferença entre os calendários de aprovação gera preocupação para a empresa e para o agronegócio. A companhia também informa que o processo de sua nova tecnologia de soja, a Intacta 5+, segue conforme o esperado na China. A aprovação pela União Europeia continua pendente, e o lançamento está previsto para 2028, condicionado às autorizações necessárias.
Barioni avalia que a entrada de novas empresas aumenta a competição no setor. DBN Biotech, LongPing e KingAgroot foram procuradas e não se manifestaram.
Representantes da cadeia de soja defendem previsibilidade regulatória. Um deles, que esteve no fim de julho na China em uma visita às unidades da DBN, disse que a integração da cadeia brasileira ao comércio internacional torna necessária a aprovação sincronizada nos países produtores e consumidores.
Outra fonte que participou da visita afirmou que Pequim usa a biossegurança como uma espécie de barreira não tarifária para ampliar o espaço de empresas chinesas no mercado. As declarações foram feitas sob condição de anonimato.








