A safra 2026/27 será formada em um cenário de endividamento elevado, crédito restrito, custos maiores, preços de commodities acomodados e menor proteção do seguro rural. Agricultores de diferentes regiões relatam redução de investimentos, renegociação de dívidas e busca por alternativas para manter a produção.
No Rio Grande do Sul, Tupanciretã emitiu seis decretos de emergência desde 2020, cinco relacionados à seca e um às chuvas intensas. As perdas levaram o produtor Michel Rodrigues a usar reservas próprias, contratar financiamentos e, depois, recorrer ao CPF de familiares. Três gerações da família ficaram com restrições de crédito. Para a próxima safra, ele planeja reduzir a área de soja, cortar gastos com adubação e comprar insumos por barter ou parcelamento com cooperativas.
Em Caçapava do Sul (RS), Diego Mariani enfrenta situação semelhante. Com o caixa esgotado e dificuldades para renegociar passivos antigos, ele afirma que conseguiu pagar apenas 30% dos financiamentos buscados para o ciclo 2026/27. A estratégia será produzir com orçamento reduzido e menor uso de tecnologia. Nas últimas safras, sementes e fertilizantes foram obtidos por barter com a Coocal e a Cotrisul.
A Cotrisul tem 2.500 associados e faturou R$ 2 bilhões em 2025. Em Cachoeira do Sul, quase 20 máquinas agrícolas foram entregues por produtores para quitar dívidas com a cooperativa. A instituição passou a oferecer crédito, insumos, consultoria financeira e orientação técnica voltada à redução de custos.
Custos e crédito pressionam o produtor
A inadimplência do crédito rural entre pessoas físicas chegou a 8,8% em julho de 2026. Os pedidos de recuperação judicial entre produtores e empresas do agronegócio alcançaram quase 2.000 solicitações em 2025. No Rio Grande do Sul, os financiamentos em atraso somam R$ 42 bilhões, de uma carteira total de R$ 111 bilhões.
Em Goiás, o custo de produção da soja aumentou cerca de cinco sacas por hectare. Em algumas regiões, o gasto pode chegar a 75 sacas por hectare, enquanto a produtividade média estadual foi de 65 sacas por hectare em 2025/26. A Faeg recomenda reduzir o uso de insumos, estratégia que já havia sido adotada na segunda safra de milho 2025/26.
O seguro rural também perdeu alcance. Metade do orçamento foi bloqueada, e a proteção subsidiada pode recuar para 2,7% da área agrícola brasileira, ou cerca de 3 milhões de hectares. Em 2021, o PSR atendia 14 milhões de hectares, equivalentes a 16,3% da área plantada.
Clima adiciona incerteza
A possibilidade de um El Niño de intensidade muito forte preocupa produtores. A previsão é de veranicos no enchimento de grãos do Centro-Oeste e chuvas acima da média no Sul. Em Mato Grosso, o Imea estima área de soja praticamente estável em 13,04 milhões de hectares para 2026/27, mas projeta queda de 5% na produção, para 48,88 milhões de toneladas.
Entre janeiro e abril deste ano, o crédito problemático em Mato Grosso chegou a R$ 21,79 bilhões, ou 18,22% da carteira rural do estado. Em 2022, o índice era de 2,08%.
Mesmo com a pressão financeira, o agro registrou resultados elevados. Em 2025, o Valor Adicionado da Agropecuária ao PIB cresceu 11,7%, para R$ 775,3 bilhões. A produção de soja alcançou 180,46 milhões de toneladas em 2025/26, e o volume total de grãos chegou a 360,8 milhões de toneladas. Para a próxima lavoura, a projeção do USDA é de 186 milhões de toneladas de soja.
Produtores e especialistas recomendam planejamento de custos, análise da viabilidade dos financiamentos, cautela com juros, uso de plantas de cobertura, atenção à qualidade do solo e semeadura escalonada. A orientação central é preservar caixa e reduzir despesas sem comprometer a produtividade necessária para manter a atividade.








