Um estudo baseado em levantamentos da Emater/RS projeta que o Rio Grande do Sul poderá chegar a 2051 com menos de 1,7 mil famílias produzindo leite. O número representaria uma redução de 94% em relação aos atuais 29 mil produtores, caso o ritmo de abandono observado entre 2015 e 2025 continue.
A estimativa foi elaborada pelo pesquisador Wagner Beskow, sócio da consultoria Transpondo. Ele ressalta que a projeção considera a manutenção de condições parecidas com as atuais, incluindo câmbio, exportações e importações, e indica uma tendência, não um número exato.
Motivos para a saída
A Emater/RS investigou as razões do abandono em 385 municípios gaúchos, com 571 famílias que deixaram a produção comercial de leite. O levantamento foi apresentado na 49ª Expointer, em Esteio (RS).
A decisão de interromper a atividade geralmente envolve vários fatores. Entre os aspectos internos, foram citados a penosidade do trabalho por 66,4% das famílias, a falta de mão de obra familiar por 61,3% e o desinteresse dos filhos por 37,8%.
No grupo de fatores externos, apareceram o baixo preço do leite, mencionado por 79,3% dos entrevistados, o custo de aquisição de insumos, com 66,7%, e a contratação de mão de obra, com 30,3%. Segundo o extensionista rural Jaime Ries, dificuldades de custo e disponibilidade de trabalhadores também pesam na decisão.
A pesquisa aponta que situações como estiagem, aposentadoria de um integrante da família ou saída de um filho da propriedade podem funcionar como gatilhos em um processo já em andamento. Depois de deixar a atividade, pouco mais de um terço das famílias relatou algum nível de redução da renda. Ainda assim, boa parte afirmou estar satisfeita com as ocupações atuais quando compara a rotina com o período em que produzia leite.
A produção leiteira foi reconhecida por algumas famílias como responsável pelo financiamento dos estudos dos filhos, pela formação de patrimônio e pela melhoria das condições de vida. Mesmo assim, 79,8% disseram não ter intenção de voltar a vender leite. Outros 16,2% afirmaram que não sabem ou talvez retomem a atividade, enquanto 4% disseram pensar em voltar a comercializar o produto.
Mais produtividade por propriedade
A redução do número de produtores ocorre ao mesmo tempo que a produtividade e a produção aumentam. No Brasil, a produtividade média passou de 1.105 litros por vaca/ano em 2000 para 2.362 litros/vaca/ano em 2024. No mesmo intervalo, a produção nacional cresceu de 19,7 bilhões para 35,7 bilhões de litros.
Entre 2006 e 2017, o número de propriedades leiteiras no país caiu de 874,5 mil para 634,5 mil, conforme o Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para 2025, estimativas do Centro de Inteligência do Leite (CILeite), da Embrapa, indicam aproximadamente 513 mil propriedades, uma queda de 41,3% em quase 20 anos.
No Rio Grande do Sul, Marcos Tang, presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), informa que o volume produzido nas propriedades passou de menos de 100 litros por dia antes de 2015 para quase 500 litros diários atualmente. O setor, segundo ele, combina menos produtores com maior escala e produtividade.
A concentração de animais de maior potencial em propriedades com mais capacidade de investimento, o aprimoramento genético e a eficiência dos rebanhos ajudaram a reduzir o impacto da saída de famílias sobre o volume total produzido. As indústrias também estimulam a ampliação da escala e da produção por animal.
Investimento e sucessão
A Cabanha Santa Clara, em Humaitá (RS), mantém 32 hectares produtivos voltados ao leite e ao cultivo de grãos. A propriedade tem 170 cabeças e produz 2,5 mil litros por dia. Os animais mais produtivos chegam a 50 litros por vaca/dia.
A produtora Clara Bickel Padilha atribui o desempenho aos investimentos contínuos. A filha dela, Bruna Bickel Padilha, de 21 anos, participa da ordenha e planeja assumir a propriedade.
Na Granja Ferraboli, em Anta Gorda (RS), a vaca Festleite P. Ferraboli 407 Supersite produziu 85,27 quilos em um dia e venceu o concurso leiteiro da Expointer 2026. O proprietário Paulo Ferraboli afirma que os custos continuam pressionando os produtores e que a permanência dos filhos na produção de leite e na lavoura é parte da sucessão familiar.








