Mudanças no comportamento, na alimentação e no ambiente podem indicar estresse em tilápias e ajudar o produtor a identificar problemas no manejo. A terceira edição do Observatório do Peixe, da Alianima, reuniu evidências científicas sobre o bem-estar desses animais e seus possíveis vínculos com os resultados da produção.
A análise considera alimentação, qualidade da água, densidade de estocagem, estrutura do ambiente, manejo, transporte e abate. De acordo com Caroline Maia, especialista em peixes na Alianima, a água dificulta a observação direta dos animais, mas sinais como sangue na água e perda de escamas devem chamar a atenção.
Sinais no tanque e na alimentação
A quantidade e a velocidade do consumo de ração estão entre os indicadores observáveis. O esperado é que os peixes comam o alimento fornecido em cerca de 3 a 5 minutos. Sobras após esse período ou consumo muito mais rápido que o habitual podem indicar alguma alteração.
Também é importante verificar se todos os animais estão se alimentando, se algum permanece na superfície e se houve mudança na forma de nadar. O uso do tanque ou viveiro fora do padrão habitual merece atenção. A concentração dos peixes em um ponto específico no fundo pode indicar um problema que afeta um grupo, um indivíduo ou todos os animais.
“Se tiver alguma coisa que diverge disso, que está diferente do padrão, provavelmente é porque alguma coisa não está bem”, afirma Caroline Maia.
A escolha da tilápia para o levantamento acompanha o crescimento da espécie no país. Em dez anos, a produção brasileira aumentou 148,2%, passando de cerca de 285 mil toneladas em 2015 para aproximadamente 707,5 mil toneladas em 2025. A espécie representa 70% dos peixes produzidos no país.
Manejo antes do abate
O levantamento relaciona condições de bem-estar a características relevantes para a produção. Entre as práticas citadas estão o descanso dos animais após o transporte e antes do abate, o uso de métodos menos estressantes e a insensibilização adequada.
Segundo Caroline Maia, essas medidas podem ajudar a preservar a textura do pescado, aumentar a retenção de água e reduzir a possibilidade de um filé mais duro. A literatura científica, porém, ainda tem limitações para medir quanto cada melhoria representa em retorno financeiro direto para o produtor.
O enriquecimento ambiental aparece entre as práticas com resultados promissores. Ainda assim, a Alianima afirma que há lacunas na produção científica, especialmente quando a análise se concentra em uma espécie específica e tenta relacionar uma prática a um ganho econômico determinado.
Desafios ao longo da cadeia
As questões de bem-estar estão presentes desde a reprodução, passando por ovos, larvas e alevinos, até o abate. A Alianima busca ampliar o acesso a dados de propriedades para acompanhar os efeitos das melhorias na prática, mas encontra dificuldade para obter informações de produtores dispostos a abrir dados sobre suas operações.
A entidade afirma que pretende estabelecer parcerias para estudos. A discussão ocorre em um momento de expansão da tilápia na produção e nas exportações brasileiras. Em 2025, a espécie respondeu por cerca de 92% do volume exportado pela piscicultura nacional.
Para Caroline Maia, o crescimento amplia a importância de temas como sustentabilidade, rastreabilidade, competitividade e transparência, além de colocar o setor diante da concorrência com tilápias importadas e das tarifas do exterior.








