SÃO PAULO — A trajetória de Josefina Orlaneta, uma trabalhadora mexicana que passou seis décadas em atividades mal remuneradas, serve de ponto de partida para questionar quem se beneficia da exploração de petróleo. A história é apresentada na peça Mi Madre y El Diñero, do dramaturgo, ator e diretor Anacarsis Ramos, em cartaz no Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas Mirada.
Josefina começou a trabalhar aos cinco anos, vendendo lanches na rua, e exerceu mais de 40 ofícios. Aos 66 anos, ainda enfrentava a falta de dinheiro. No espetáculo, ela atua ao lado do filho, que apresenta sua trajetória como resultado de um sistema econômico que exclui parte da população.
A peça também relaciona a vida da personagem às mudanças econômicas em Campeche, estado mexicano onde ela e a família viveram. No início dos anos 2000, Josefina abriu um pequeno mercado e alcançou alguma estabilidade. O negócio, porém, foi prejudicado pela expansão das lojas Oxxo, cadeia mexicana que passou a ocupar muitos pontos de comércio em São Paulo.
Petróleo e concentração de riqueza
Campeche abriga cidades costeiras do Golfo do México e, nos anos 1970, tornou-se centro de uma transformação econômica provocada pela descoberta do maior campo de petróleo em alto mar do México. O campo chegou a ser considerado a segunda maior reserva de hidrocarbonetos do mundo, atrás apenas das reservas da Arábia Saudita.
A exploração fortaleceu a Pemex e atraiu empresas como Chevron e ExxonMobil. O primeiro poço recebeu o nome de Cantarell, em homenagem ao pescador que avistou uma mancha de petróleo no mar. A atividade, porém, afetou a pesca local, e ele morreu na pobreza, assim como outros pescadores.
No Brasil, a exploração do Pré-Sal pela Petrobras também direcionou royalties para cidades e estados. O Rio de Janeiro foi o principal beneficiado. A questão levantada é quantas mulheres que vivem no estado, trabalham em empregos mal pagos e sustentam suas famílias não tiveram acesso ao dinheiro gerado pelo petróleo.
A expectativa na foz do Amazonas
A mesma disputa por riquezas começa a aparecer na foz do rio Amazonas. Oiapoque, cidade mais ao norte do país, deverá abrigar bases para a extração de petróleo. A expectativa já provocou fluxo migratório, sobrecarga nos serviços públicos, invasões de terra e desmatamento para a formação de novos bairros.
O cenário levanta dúvidas sobre o futuro da economia da costa amazônica caso a exploração em alto mar provoque vazamentos. A preocupação envolve também a atividade pesqueira na foz do rio Amazonas, apontada como uma das maiores de todo o Brasil.
A pergunta central é se a exploração de recursos naturais vai reduzir a pobreza ou repetir um modelo em que a riqueza se concentra enquanto parte da população permanece fora das oportunidades. A história de Josefina representa o risco de que novas trabalhadoras brasileiras passem a contar, no futuro, uma trajetória marcada pelo trabalho precoce e pela ausência dos ganhos gerados pelo petróleo.









