O Ministério Público de São Paulo abriu uma notícia de fato para apurar, em caráter preliminar, uma possível ligação entre o caso do Banco Master e as privatizações da Sabesp e da Emae realizadas durante o governo de Tarcísio Gomes de Freitas. A Promotoria do Patrimônio Público e Social deu prazo de 45 dias para que órgãos e empresas apresentem informações.
A apuração começou a partir de uma representação do deputado Antônio Donato (PT-SP), líder do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Foram solicitados dados à Sabesp, à Emae, ao Tribunal de Contas do Estado e ao governo estadual.
O despacho, assinado pela promotora Cíntia Marangoni em 15 de julho, delimita a análise a possíveis atos de improbidade administrativa, prejuízo ao patrimônio público, violação dos princípios da administração, restrição à competitividade, conflito de interesses e favorecimento indevido de particulares. O procedimento também examina a privatização da Emae, a desestatização da Sabesp e a posterior aquisição do controle da Emae pela Sabesp.
Após o recebimento das respostas ou o fim do prazo, a promotora decidirá se existem elementos para abrir um inquérito civil.
Questionamentos apresentados pelo deputado
Na representação, Donato relaciona o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, a operações envolvendo Nelson Tanure, Carlos Piani, a Ambipar, a REAG e a Trustee DTVM. O deputado afirma que o banco teria participado da estruturação e do financiamento de grupos interessados nos processos de privatização.
A Emae foi leiloada na Bovespa em 19 de abril de 2024. O Fundo Phoenix venceu a disputa pelas ações estaduais por aproximadamente R$ 1,04 bilhão, superando a proposta da EDF. Segundo a representação, o fundo havia sido constituído em 20/03/2024 e tinha ações da Ambipar como principal lastro.
Donato também cita um parecer técnico da Superintendência de Registro de Emissores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O documento afirma que a aquisição do controle da Emae foi viabilizada pelo Banco Master, por meio da Trustee, de Nelson Tanure e de Tércio Borlenghi Junior, fundador e controlador da Ambipar, com uma emissão privada de debêntures da Phoenix S.A.
Outro ponto mencionado é a nomeação de Karla Maciel Dolabella para a presidência da Emae após a privatização. Antes, ela chefiava a área de fusões e aquisições do Banco Master. Karla Maciel deixou, em dezembro de 2025, os cargos de CEO e diretora de Pessoas e Sustentabilidade da Emae, alegando razões pessoais.
Relação com a Sabesp
A representação também questiona a desestatização da Sabesp, conduzida em julho de 2024. Donato afirma que a empresa foi vendida por valor 44% inferior ao que considerava real, com base em avaliações atribuídas ao Observatório Nacional das Águas (Ondas), à Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) e à Associação de Profissionais Universitários da Sabesp (APU).
A Equatorial assumiu o controle da Sabesp. Carlos Piani, que havia presidido o conselho da Ambipar, tornou-se presidente da companhia em outubro de 2024 e permanece no cargo, conforme a representação.
Donato ainda descreve operações realizadas entre julho e setembro de 2025, quando Tanure teria retirado R$ 160 milhões do caixa da Emae para comprar CDBs do Banco Master. De acordo com o deputado, após a execução de uma dívida pela XP Investimentos e a transferência do controle da Emae, a Sabesp comprou a empresa da XP.
Na denúncia, o parlamentar pede a apuração de possíveis crimes contra o mercado de capitais e o sistema financeiro, lavagem de dinheiro, organização criminosa e atos de improbidade administrativa. Ele também menciona doações de R$ 2 milhões feitas por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, à campanha de Tarcísio, e de R$ 3 milhões à campanha de Jair Bolsonaro em 2022.
Posicionamento da Sabesp
A Sabesp declarou que a notícia de fato é um procedimento preliminar destinado à coleta de esclarecimentos e que fornecerá as informações solicitadas pelo Ministério Público. A companhia afirmou que a desestatização foi documentada e submetida às instâncias legais e regulatórias, com autorização do Legislativo estadual, consultas e audiências públicas e oferta registrada na CVM, além de documentação apresentada à SEC, nos Estados Unidos.
A empresa também disse que as operações societárias posteriores, incluindo a aquisição da Emae, foram aprovadas pelos órgãos competentes. “Não há qualquer fundamento para associar a Sabesp ou seus administradores aos fatos investigados envolvendo o Banco Master”, afirmou a companhia.








