O vídeo “Grandes Igrejas, Master Negócios”, publicado por Fábio Porchat, alcançou públicos fora dos grupos alinhados à esquerda e associou o caso Master a nomes ligados ao campo bolsonarista. A avaliação é do cientista político Leonardo Magalhães, diretor executivo da Ipse Global, que monitora temas da esfera pública digital para desenvolver estratégias de marketing político e eleitoral.
A análise, porém, não identificou conversão do alcance em votos. O engajamento diário relacionado ao vídeo passou de 1,15% para 5,78% em uma semana. Segundo Magalhães, o pico ocorreu no dia em que o perfil do ator foi removido pelas plataformas, e não na data de lançamento do material.
Alcance fora da base não significa voto
Magalhães afirma que o vídeo chegou a pessoas sem posição fixa, mas que os dados disponíveis não permitem afirmar que houve mudança de preferência eleitoral. “Nós medimos a exposição”, disse.
Na repercussão do caso, Daniel Vorcaro concentrou o maior desgaste, seguido pelo senador Flávio Bolsonaro. André Valadão apareceu com 11,6% das citações, enquanto Nicolas Ferreira registrou 2,9%.
A Igreja Batista da Lagoinha liderou o engajamento associado ao episódio, com 49%. Para Magalhães, essa ligação foi reforçada por cenas, imagens e testemunhos que circularam nas redes, mais do que por uma construção baseada em argumentos escritos.
Influenciadores responderam por 38,5% do engajamento sobre o caso Master, diante de 21,2% dos políticos. No debate digital sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na ONU, a proporção se inverteu: 55,3% da indignação da oposição foi produzida diretamente por agentes políticos.
A diferença, segundo o diretor da Ipse Global, está na percepção sobre o emissor. Uma denúncia feita por político tende a ser interpretada como peça de campanha e ativa a reação do campo adversário. Quando parte de alguém de fora do sistema partidário, pode ser vista como apuração independente ou manifestação da sociedade.
Silêncio bolsonarista e oportunidades perdidas
O campo bolsonarista não deu destaque ao vídeo de Porchat. As publicações analisadas mencionaram o caso Master, mas não o material que fazia as acusações. Para Magalhães, essa foi uma escolha deliberada: responder poderia ampliar a audiência do denunciante.
Ao mesmo tempo, o silêncio deixou o grupo sem controle sobre a interpretação do episódio e permitiu que o tema fosse associado ao enquadramento apresentado pelo adversário.
Na avaliação do cientista político, as campanhas de Lula e de Flávio Bolsonaro adotam estratégias rígidas, descritas por ele como “receitas de bolo”. A campanha de Flávio estaria atuando mais na contenção e se beneficiando de lacunas deixadas pela campanha de Lula do que de uma ação própria mais eficiente.
Magalhães também considera que a campanha de Lula aposta excessivamente na exposição de suspeitas e no desgaste do adversário, embora esse caminho não esteja reduzindo sua força eleitoral. Para ele, o governo deveria apresentar uma narrativa sobre o que já foi entregue, com personagens, emoção, conflito e indicação do futuro desejado.
Pauta moral domina a repercussão
O relatório da Ipse Global aponta que o enquadramento de “corrupção moral” representa 67,2% dos debates sobre o caso Master. Indignação e desprezo concentram 85% das reações relacionadas ao episódio.
Magalhães explica que acusações morais exigem menos esforço do público: basta reconhecer uma cena ou uma imagem. Já a avaliação de entregas materiais depende de identificar um benefício na própria vida, na família ou na comunidade, processo mais lento e menos compartilhável nas redes.
No debate sobre Lula na ONU, políticos da oposição geraram 55,3% do engajamento, enquanto políticos aliados produziram 38,2%. A soma chegou a 93% do total. A participação da imprensa foi minoritária nos dois assuntos analisados: o caso Master e a campanha eleitoral.
Desconfiança favorece discurso antissistema
As pesquisas qualitativas da Ipse Global identificam aumento da desconfiança nas instituições, no futuro e nas outras pessoas, além de insatisfação com o sistema. Na avaliação de Magalhães, esse cenário mantém um eleitorado receptivo a propostas de ruptura ou mudança estrutural.
Ele relaciona essa dinâmica ao discurso associado a Jair Bolsonaro em 2018. Para o diretor, o bolsonarismo conseguiu ocupar o espaço da rebelião contra o sistema, mesmo quando defende posições mais próximas dele do que o governo Lula.
A recomendação para a campanha governista é abandonar a dependência exclusiva da campanha negativa e apresentar um caminho de futuro. O vídeo de Porchat seria um exemplo de formato narrativo, mas não necessariamente uma resposta suficiente para a campanha de Lula, porque mantém o debate concentrado no caso Master, considerado por Magalhães um terreno mais favorável ao adversário.








