A Bahia concentrou 1.570 mortes provocadas por forças de segurança em 2025, quase 25% dos casos registrados no país. Mesmo com um plano estadual para reduzir a letalidade policial, o candidato à reeleição Jerônimo Rodrigues (PT) propõe ampliar câmeras corporais, reconhecimento facial, leitura automática de placas e o compartilhamento de imagens públicas e privadas.
O estado está entre os 10 com as forças de segurança mais letais do país, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A lista também inclui Amapá, Sergipe, Pará, Goiás, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Norte, Mato Grosso e Alagoas. Todos tiveram taxas acima da média nacional, de 3,1 mortes a cada 100 mil habitantes.
Em 2025, ações de agentes de segurança resultaram em 6.602 homicídios no Brasil. Esse foi o maior número absoluto da série histórica do anuário, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, desde 2016.
Tecnologia como promessa eleitoral
A integração de bases de dados, o videomonitoramento e o uso de inteligência artificial aparecem nos programas de candidatos de diferentes correntes políticas. As propostas incluem centros de comando e controle, cercamento eletrônico, reconhecimento de placas e identificação de veículos.
No Amapá, o governador Clécio Luiz (União), candidato à reeleição com apoio de Davi Alcolumbre (União-AP), anunciou em junho deste ano um sistema estadual de inteligência. A estrutura deve reunir o Centro Integrado de Inteligência em Segurança Pública a órgãos de segurança e agências federais, entre elas a Polícia Federal e o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
O plano de Clécio prevê câmeras inteligentes em entradas e saídas dos municípios, áreas de maior incidência criminal, rodovias e equipamentos públicos. A proposta também cita videomonitoramento em tempo real e inteligência artificial conectados ao Centro Integrado de Operações de Segurança Pública. O documento não apresenta medidas específicas para reduzir a letalidade policial.
Dr. Antônio Furlan (PSD), principal adversário do governador e ex-prefeito de Macapá, promete expandir o videomonitoramento, a análise de dados e a inteligência artificial. O sistema proposto reuniria informações sobre criminalidade, apreensões de drogas e armas, organizações criminosas e disputas territoriais. A questão das mortes provocadas por agentes de segurança não aparece na proposta.
O Amapá teve, em 2025, a maior taxa de letalidade policial do país pelo 7º ano consecutivo. Desde 2024, o estado também registra o maior índice de homicídios em geral no Brasil. A polícia local já mantinha iniciativas próprias de integração de dados e produção de inteligência.
Estados com políticas diferentes
Em Goiás, Daniel Vilela (MDB), candidato identificado com a continuidade da atual política de segurança, defende a expansão do videomonitoramento inteligente, da análise de dados e do reconhecimento de padrões para antecipar crimes. A proposta é chamada de “IA Contra o Crime”.
A polícia goiana foi responsável por 362 mortes em 2025. O estado afirma que a letalidade policial caiu mais de 40% desde 2020, mas os índices permanecem altos, com suspeitas de atuação de grupos de extermínio formados por policiais militares.
O candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, propõe um sistema nacional de inteligência criminal. O plano prevê o uso de inteligência artificial para cruzar dados, identificar redes criminosas, orientar operações e acompanhar a movimentação interestadual de suspeitos e presos.
Para o professor de ciência política da Universidade Federal de São Paulo, Bruno Konder Comparato, a tecnologia pode apoiar o trabalho em áreas com maior frequência de crimes, mas não substitui medidas voltadas à atuação policial. “A tecnologia não faz mágica”, afirmou. Segundo ele, investimentos em treinamento e técnicas não letais são necessários para reduzir a violência policial.
Integração nacional
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, defende a construção de um Sistema Nacional de Segurança Pública mais articulado e o fortalecimento da integração entre União, estados e municípios. A proposta também inclui o reforço da inteligência estatal.
O secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, afirma que a União integra dados produzidos pelos estados, sem assumir a execução das ações policiais. Entre as ferramentas oferecidas estão o Infoseg e o Córtex. “Não concorremos com os estados”, disse Lucas, ao explicar que cabe às unidades da federação usar os sistemas disponibilizados.
Um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Amapá e da Universidade de Lisboa relaciona as mortes por intervenção policial no estado ao avanço do narcotráfico. A pesquisadora Ariadne Natal, associada ao Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, afirmou em artigo de 2024 que o uso da força letal no Amapá tem sido excessivo e desproporcional. Entre 2015 e 2023, o estado registrou média de 80 civis mortos para cada policial vitimado.








