Perfis que promovem políticos bolsonaristas passaram a atuar de forma coordenada para ampliar a audiência de contas dedicadas ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A mobilização ocorre durante a crise provocada pelas revelações do caso Master e combina publicações colaborativas, mudanças de identidade e convocações para que seguidores acompanhem as páginas de apoio ao magistrado.
O levantamento identificou ao menos 24 perfis no Instagram voltados a Mendonça. Até quarta-feira (16), essas contas reuniam 5,6 milhões de seguidores. Ao menos 12 já existiam antes da crise no STF e apenas trocaram de nome.
Contas mudaram de nome
Duas das maiores páginas são @andremendoncas2 e @andremendoncas3, que juntas têm quase 3 milhões de seguidores. A primeira foi criada em novembro de 2024, chegou a 1,9 milhão de seguidores e recebeu o selo de verificação do Instagram em agosto. Desde sua criação, mudou de nome oito vezes.
A conta não exibe publicações anteriores a setembro. Antes de se dedicar a Mendonça, havia republicado conteúdos religiosos, anti-LGBTQIA+ e sobre futebol. A segunda página foi criada em abril, mudou de nome duas vezes e também não apresenta publicações anteriores a setembro. O Instagram não informa quais eram os nomes anteriores dos perfis.
Os primeiros conteúdos atualmente disponíveis nessas contas foram publicados em 5 e 7 de setembro. A partir daí, as páginas passaram a divulgar materiais quase idênticos, muitos deles compartilhados também por outras contas identificadas no levantamento.
As duas páginas associaram uma pregação feita por Mendonça em fevereiro deste ano, durante uma conferência cristã de apoio a mães de pessoas atípicas, às discussões recentes no STF. Até quarta-feira (16), essas publicações acumulavam cerca de 2 milhões de visualizações.
Mobilização religiosa e eleitoral
Entre 1º e 9 de setembro, 156 publicações que apresentavam a atuação de Mendonça como uma jornada de herói evangélica somaram 228 milhões de visualizações. Os conteúdos pediam orações pelo ministro, chamavam-no de “servo de Deus” e descreviam sua atuação no STF como uma missão divina. Não foi possível determinar quanto desse engajamento é autêntico.
A estratégia envolveu perfis com público já consolidado. Uma conta que usa o nome e a imagem do deputado federal Nikolas Ferreira, por exemplo, publicou uma chamada para que seus seguidores acompanhassem a @andremendoncas2. Também foram identificadas colaborações entre páginas dedicadas a políticos bolsonaristas e perfis de apoio ao ministro, além da reprodução de imagens, vídeos e legendas idênticas.
Uma das publicações compartilhadas por diferentes perfis bolsonaristas informava que uma conta dedicada a Mendonça havia ultrapassado 240 mil seguidores em 24 horas.
A prática de usar estruturas preexistentes para simular apoio popular espontâneo é conhecida como astroturfing. Nesse caso, a disputa institucional relacionada ao caso Master foi apresentada como uma missão atribuída ao ministro por Deus ou como uma batalha entre o bem e o mal.
A mobilização também apareceu em discursos eleitorais. Das publicações analisadas, 20 foram feitas por candidatos ou políticos com mandato. Alfredo Gaspar, candidato a vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro, associou a disputa envolvendo Mendonça à eleição de outubro e afirmou que Moraes e o presidente Lula representariam um sistema que tentaria impedir o ministro de avançar nas investigações sobre o Banco Master e as fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O vídeo terminava com o pedido: “que Deus abençoe o ministro André Mendonça”. Até quarta-feira (16), o conteúdo acumulava 2,2 milhões de visualizações e 27 mil compartilhamentos.
O especialista em direito eleitoral Marcos Jorge afirmou que haveria problema se as publicações atribuíssem a Mendonça um apoio eleitoral que ele não declarou. Segundo a avaliação apresentada, a associação feita por Gaspar entre o ministro e Flávio Bolsonaro não atribuiu a Mendonça uma manifestação eleitoral inexistente.
O advogado e mestre em Direito e Políticas Públicas Adriano Fonseca disse que a eventual anuência ou articulação prévia de Mendonça para o uso eleitoral de suas manifestações poderia provocar questionamentos éticos e constitucionais. Não foram encontradas evidências de que o ministro tenha autorizado ou participado da elaboração das publicações.
Foram solicitados posicionamentos ao gabinete de André Mendonça, às assessorias de Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro, ao gabinete de Alfredo Gaspar e à Meta. Até a publicação, não havia resposta dos citados. A Meta também foi questionada sobre a possível violação de suas regras quando uma conta com audiência preexistente muda repetidamente de nome e tema para promover uma figura pública.








