PARÁ — Guerreiros Kayapó bloquearam, desde 21 de setembro, a estrada de acesso ao garimpo ilegal Pista Velha, na Terra Indígena Baú, no sudeste do Pará. O ponto fica próximo ao rio Curuazinho, dentro do território indígena.
A mobilização busca interromper o abastecimento dos invasores. Informações da Rede Xingu+, que monitora as terras indígenas Baú e Menkragnoti, indicam que o número de garimpeiros no local quadruplicou nos últimos dois meses e chegou a aproximadamente 400 pessoas.
Os indígenas receberam relatos sobre a presença de armas de vários calibres, incluindo pelo menos quatro fuzis. Eles suspeitam que facções criminosas ligadas ao narcotráfico possam participar da extração ilegal de ouro. Mesmo com o risco de confronto, o grupo afirma que permanecerá no bloqueio até uma ação do poder público para retirar os invasores.
A Polícia Federal informou que acompanha a situação e adota medidas para enfrentar atividades ilícitas na região.
Operação não alcançou o Pista Velha
O garimpo é alvo de conflitos entre invasores e Kayapó desde 2019. No fim de julho, uma operação da Polícia Federal e do Ibama fez autuações, registrou áreas degradadas e inutilizou dois acampamentos, além de pás-carregadeiras, motores de balsas, gerador, tanque e galões de combustível.
A ação ocorreu entre 28 de julho e 1º de agosto, com o uso de três aeronaves, mas não chegou ao Pista Velha. Segundo as organizações que acompanham a área, os infratores foram apenas dispersados temporariamente. A PF disse que a operação combateu atividades ilegais de extração mineral na região e em áreas externas que impactam cursos d’água e comunidades indígenas.
A Terra Indígena Baú possui 1,5 milhão de hectares e abriga os povos Kayapó, também autodenominados Mebengôkre, e os isolados Pu´rô. Em fevereiro, uma expedição de vigilância dos indígenas havia interceptado dois grupos de garimpeiros e apreendido duas armas de fogo. No começo do ano, os Kayapó também identificaram outro ponto de mineração ilegal, além do Pista Velha.
Na quinta-feira, 24 de setembro, uma equipe indígena encontrou uma espingarda calibre 28 e um motor de barco escondidos perto do garimpo. O equipamento era anunciado na internet por valores entre R$ 10 mil e R$ 12 mil.
Expansão da área de garimpo
A mineração ilegal ocorre em barrancos abertos na floresta, com derrubada de árvores, destruição da vegetação e revolvimento do solo. A atividade é proibida em terras indígenas.
Levantamento do Instituto Socioambiental aponta que, até 2017, havia 150 hectares desmatados pela mineração no território. Entre 2018 e 2022, as áreas de garimpo passaram de 308 hectares. Em 2025, o total acumulado chegou a 332 hectares, segundo dados da plataforma Amazon Watch.
No entorno oeste das terras indígenas Baú e Menkragnoti, a área desmatada por garimpo cresceu 11% entre 2024 e 2025. Quase 80% dessas áreas não tinham autorização da Agência Nacional de Mineração para exploração.
Em maio, a Justiça Federal no Pará determinou que o Ibama fiscalizasse e desmobilizasse o garimpo Esperança IV, às margens do rio Curuá. A atividade também avança em outras áreas protegidas e terras indígenas da bacia do Xingu, incluindo Kuruaya, Trincheira Bacajá e Apyterewa. A Rede Xingu+ aponta uma das situações mais críticas na Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo.








