Os atentados de 11 de setembro de 2001 mudaram profundamente o Oriente Médio. A resposta dos Estados Unidos começou com a chamada Guerra ao Terror, avançou sobre o Afeganistão e, depois, levou à invasão do Iraque. Ao longo de 25 anos, a região passou por guerras, ocupações, insurgências, atentados e intervenções estrangeiras que alteraram o equilíbrio entre as potências locais.
Sob o governo de George W. Bush, os Estados Unidos entraram no Afeganistão ainda em 2001. O objetivo declarado era destruir a Al-Qaeda e retirar do poder o Talibã, que abrigava Osama bin Laden. Em março de 2003, tropas norte-americanas e de países aliados invadiram o Iraque e derrubaram Saddam Hussein.
Iraque e o fortalecimento do Irã
A justificativa central para a guerra no Iraque era a acusação de que Saddam mantinha armas de destruição em massa e representava uma ameaça à segurança internacional. As investigações realizadas depois da invasão, porém, não encontraram os estoques clandestinos de armas químicas e biológicas apresentados como perigo imediato. O episódio provocou uma crise de credibilidade para a política externa dos Estados Unidos.
A queda de Saddam não trouxe estabilidade. A dissolução de estruturas do Estado e das Forças Armadas abriu espaço para uma insurgência e, posteriormente, para confrontos entre sunitas e xiitas. A ascensão de forças xiitas aproximou parte da estrutura política iraquiana de Teerã, enquanto organizações e milícias apoiadas pelo Irã ampliaram sua influência no país.
O resultado também alterou o equilíbrio regional. Saddam havia sido um dos principais adversários do Irã, que travou com o Iraque uma guerra entre 1980 e 1988. Com a eliminação do regime iraquiano, desapareceu um dos contrapesos ao poder iraniano. Uma intervenção planejada em Washington para ampliar a segurança e a influência norte-americanas acabou fortalecendo seu principal rival regional.
Do combate à Al-Qaeda ao Estado Islâmico
A Al-Qaeda perdeu capacidade de comando nas décadas seguintes aos atentados. Osama bin Laden foi morto por forças norte-americanas no Paquistão em 2011, mas o jihadismo continuou ativo.
O ambiente criado pela guerra do Iraque favoreceu a expansão de grupos mais violentos. A Al-Qaeda no Iraque, inicialmente liderada por Abu Musab al-Zarqawi, tornou-se uma das origens do grupo que depois formaria o Estado Islâmico. Em 2014, a organização tomou áreas extensas do Iraque e da Síria e anunciou um califado com capital em Raqqa.
O território controlado pelo grupo foi posteriormente retomado, mas as organizações jihadistas não desapareceram. Elas se dividiram em redes que passaram a atuar em diferentes áreas da Ásia, do Oriente Médio e da África.
Mortes, deslocamentos e gastos
O projeto Costs of War, da Universidade Brown, calcula que as guerras conduzidas pelos Estados Unidos depois do 11 de setembro causaram entre 905 mil e 940 mil mortes diretas por violência até 2023. A estimativa inclui militares, combatentes, jornalistas, trabalhadores humanitários e civis em diferentes áreas de conflito.
Ao incluir mortes indiretas ligadas à destruição de sistemas de saúde, infraestrutura, abastecimento, economias locais e segurança alimentar, pesquisadores avaliam que o total nas zonas das guerras pós-11 de setembro possa chegar a pelo menos 4,5 milhões de pessoas. Milhões de outras deixaram suas casas.
O mesmo projeto estima que os Estados Unidos gastaram ou assumiram compromissos superiores a US$ 8 trilhões com as guerras iniciadas depois de 2001.
O retorno do Talibã
O Afeganistão resume parte das contradições do período. A campanha iniciada depois dos atentados tinha como metas retirar o Talibã do poder e impedir que o país fosse usado como base por organizações terroristas internacionais.
Os Estados Unidos permaneceram no território por duas décadas. Em agosto de 2021, retiraram as últimas tropas, depois de o Talibã retomar Cabul. Assim, após milhares de mortes, centenas de bilhões de dólares em gastos e vinte anos de ocupação, o movimento derrubado em 2001 voltou ao governo.
Uma região com mais centros de poder
A Primavera Árabe, iniciada em 2010, derrubou governos e abriu novas disputas. Na Síria, a revolta contra Bashar al-Assad evoluiu para uma guerra com participação de potências regionais e internacionais. O Iêmen enfrentou outro conflito, acompanhado de uma grave crise humanitária. Na Líbia, a intervenção ocidental de 2011 e a queda de Muammar Gaddafi foram seguidas por fragmentação.
Nesse período, as disputas entre Irã, Israel, Arábia Saudita, Turquia e outras forças regionais ganharam novas dimensões. O Oriente Médio ficou menos submetido a uma única potência externa e mais marcado pela competição entre vários centros de poder.
Os Estados Unidos continuam decisivos na região, mas deixaram de atuar em um cenário unipolar. A China ampliou sua presença diplomática e comercial, enquanto a Rússia voltou a ter papel relevante. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Turquia e Irã também passaram a buscar políticas externas mais autônomas.
As guerras mostraram que a capacidade de derrubar governos não é suficiente para organizar a política posterior. Afeganistão e Iraque expuseram a distância entre vencer uma guerra convencional e construir a paz seguinte. A Al-Qaeda perdeu a posição que tinha em 2001, mas o terrorismo jihadista se transformou e continuou presente em diferentes regiões.
O período iniciado após os atentados combinou a destruição de parte da estrutura responsável pelos ataques com custos humanos e financeiros elevados. A invasão do Iraque, por sua vez, foi lançada com base em armas de destruição em massa que nunca foram encontradas. O resultado foi uma transformação regional que ampliou a fragmentação e revelou os limites do poder militar para controlar as consequências políticas, sociais e humanas de uma guerra.








