Em 11 de setembro de 1973, as Forças Armadas do Chile derrubaram o presidente Salvador Allende, cercaram o Palácio de La Moneda e bombardearam a sede do governo. Allende morreu dentro do palácio, e o país entrou em uma ditadura que duraria 17 anos.
O golpe interrompeu a chamada via chilena ao socialismo, projeto que pretendia promover transformações econômicas e sociais por meio de eleições, Congresso, partidos políticos e liberdades públicas. Médico, socialista e parlamentar, Allende havia vencido a eleição presidencial de 1970 após disputar o cargo outras vezes.
Durante seu governo, setores estratégicos foram nacionalizados, entre eles a mineração do cobre. Também houve aprofundamento da reforma agrária e ampliação de políticas sociais. A experiência recebeu apoio de trabalhadores e movimentos populares, mas enfrentou oposição das elites chilenas e dos Estados Unidos.
Pressão externa e crise interna
Documentos oficiais desclassificados registram que a administração de Richard Nixon e setores da inteligência norte-americana atuaram para impedir a chegada de Allende ao poder e, depois, para enfraquecer seu governo. Washington financiou grupos oposicionistas, autorizou operações clandestinas e aumentou a pressão econômica sobre o Chile.
A política externa dos Estados Unidos considerava o país uma peça relevante da Guerra Fria. Um governo socialista eleito poderia demonstrar que mudanças sociais profundas eram possíveis sem revolução armada e dentro das instituições democráticas.
O governo Allende também enfrentava problemas internos, como crise econômica, inflação elevada, desabastecimento, greves, radicalização política e conflito institucional. A queda do presidente, porém, não pode ser compreendida sem considerar a intervenção norte-americana naquele contexto.
Na manhã do golpe, unidades militares ocuparam pontos estratégicos do país. A Marinha havia se rebelado em Valparaíso, e logo ficou evidente que as principais forças armadas participavam da ação. Allende foi ao Palácio de La Moneda e recusou a exigência de renúncia.
Em discurso transmitido pela Rádio Magallanes, afirmou: “Tenho fé no Chile e em seu destino”. Poucas horas depois, aviões Hawker Hunter da Força Aérea chilena bombardearam o palácio, que foi parcialmente destruído e tomado pelas tropas.
A morte de Allende e a repressão
Durante décadas, houve controvérsia sobre a morte do presidente. A versão oficial indicava suicídio com um fuzil AK-47 recebido de Fidel Castro, enquanto partidários de Allende sustentavam que ele havia sido assassinado pelos militares golpistas.
Após a exumação dos restos mortais e uma análise conduzida por especialistas internacionais, a investigação concluiu que as evidências eram compatíveis com suicídio. A Justiça chilena aceitou posteriormente essa conclusão. Politicamente, contudo, a morte continuou associada ao golpe e à ruptura violenta da ordem constitucional.
O general Augusto Pinochet, nomeado comandante-chefe do Exército por Allende semanas antes, tornou-se líder da junta militar e concentrou o poder. Partidos foram proibidos ou passaram à clandestinidade, o Congresso foi fechado e sindicatos, organizações populares e universidades sofreram perseguição ou intervenção.
O Estádio Nacional de Santiago foi usado como centro de detenção. Entre os presos estava Víctor Jara, músico e apoiador de Allende, que foi torturado e assassinado poucos dias depois do golpe.
Comissões oficiais chilenas criadas após a redemocratização registraram mais de 3 mil mortos ou desaparecidos em consequência da repressão política. Dezenas de milhares foram presas e torturadas, e centenas de milhares deixaram o país.
A herança política e econômica
A ditadura também alterou a organização econômica do Chile. Economistas ligados à Universidade de Chicago, conhecidos como Chicago Boys, influenciaram políticas de privatização, abertura comercial, redução da presença do Estado e reforma do sistema previdenciário.
Defensores do chamado modelo chileno destacaram crescimento econômico, estabilidade macroeconômica e abertura ao investimento estrangeiro. Críticos apontaram concentração de renda, mercantilização de serviços essenciais, aposentadorias insuficientes e desigualdades sociais.
Pinochet deixou o poder em 1990, depois de perder o plebiscito de 1988 que decidiria sua permanência no governo. O Chile voltou à democracia e atravessou décadas de estabilidade institucional, mas as disputas sobre o legado da ditadura permaneceram.
As manifestações iniciadas em 2019 recolocaram em debate estruturas econômicas, sociais e institucionais relacionadas ao período militar. A Constituição de 1980, elaborada durante o regime Pinochet, também se tornou parte dessa disputa. Embora tenha sido reformada na democracia, sua origem continuou associada à permanência de aspectos institucionais da ditadura.
Para a América Latina, o 11 de setembro de 1973 permanece como uma data distinta dos atentados de 2001 contra os Estados Unidos. Naquele dia, um presidente eleito foi derrubado, a sede do governo foi bombardeada e uma democracia mergulhou em 17 anos de regime militar.
Salvador Allende se tornou símbolo da experiência democrática do socialismo chileno e da resistência às ditaduras latino-americanas. Mortos, desaparecidos, torturados, exilados e famílias separadas mantêm a memória daquele período presente no Chile. A democracia foi restaurada, mas a ferida aberta pelo golpe ainda não cicatrizou completamente.








