SÃO PAULO — Uma carta do ex-presidente da Nigéria Olusegun Obasanjo ao então presidente Goodluck Jonathan revelou que Jonathan pretendia disputar outro mandato, apesar de ter declarado publicamente o contrário. A divulgação do documento provocou uma divisão no People’s Democratic Party (PDP), ao qual os dois pertenciam, e enfraqueceu a campanha de reeleição do presidente.
A história foi contada por Musikilu Mojeed no domingo, no piauí Journalism Festival, realizado na Cinemateca Brasileira. Em dezembro de 2013, depois de passar um dia cobrindo o funeral de Nelson Mandela na África do Sul, o jornalista recebeu uma ligação de uma fonte que queria entregar uma carta. Ao analisar o documento, Mojeed identificou a mensagem de Obasanjo.
Além da intenção de Jonathan de buscar novo mandato, a carta apontava problemas na administração, como falhas no combate à corrupção e ao tráfico de drogas e a incapacidade de encerrar conflitos étnicos. Mojeed trabalhou durante a noite para preparar a notícia. As eleições realizadas em março de 2015 terminaram com a derrota do presidente que tentava permanecer no cargo.
Da imprensa impressa ao jornal digital
Mojeed é editor-chefe do Premium Times, jornal criado em 2011 e dedicado ao jornalismo investigativo na Nigéria. Antes disso, integrou a equipe de reportagem do Next, publicação de circulação nacional. Depois de divulgar irregularidades no governo de Umaru Yar’Adua, entre 2007 e 2010, o jornal foi alvo de uma tentativa de invasão por agentes do Estado. Os investidores nigerianos que financiavam a publicação foram pressionados a retirar o apoio, e o veículo encerrou as atividades.
Foi nesse contexto que Mojeed e outros jornalistas decidiram criar o Premium Times. Desde o início, o jornal opera exclusivamente no meio digital. Para explicar o modelo, Mojeed afirmou: “We knew that advertising would never sustain an independent newspaper in a country like ours.”
O jornalista também atuou como representante da Nigéria no International Press Institute (IPI), organização voltada à defesa da liberdade de imprensa. Entre as iniciativas mencionadas está o Black Book, projeto que identifica funcionários públicos acusados de violar direitos de jornalistas ou dificultar o trabalho de organizações de notícias. A lista inclui governadores estaduais e um inspetor-geral da polícia.
Mojeed relatou ainda que sua casa foi alvo de uma tentativa de invasão em março de 2020. Depois, Samuel Ogundipe, então repórter do Premium Times, foi intimidado por dois agentes de segurança.
Investigações e próxima eleição
Em outubro de 2025, o Premium Times examinou declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a Nigéria. O jornal mostrou que os números usados para sustentar a afirmação de um genocídio contra a população cristã do país estavam inflados e que o conflito também envolvia disputas por terra e recursos agrícolas.
As eleições gerais nigerianas ocorrem a cada quatro anos. A próxima está marcada para janeiro de 2027. Mojeed disse que o Premium Times continuará com o jornalismo investigativo independentemente de quem for eleito. “Anything you investigate in your own small corner of the world, anything that shines a light on what others want to keep hidden, is investigative journalism,” afirmou.








