A fístula ruminal é uma técnica cirúrgica que permite acompanhar o funcionamento do sistema digestivo dos bovinos e avaliar como os alimentos são aproveitados. O procedimento é usado há décadas, segundo a Embrapa Gado de Leite.
A cirurgia instala uma cânula na parede abdominal, com acesso direto ao rúmen, o maior dos quatro compartimentos do estômago dos bovinos. Os demais são o retículo, o omaso e o abomaso.
Depois da recuperação, pesquisadores conseguem retirar materiais do órgão ou inserir amostras para observar o processo digestivo. O acesso também reduz a necessidade de intervenções invasivas e repetidas, como a passagem de uma sonda pelo esôfago.
“A finalidade é estabelecer um acesso de longa duração para acompanhar sistematicamente o ambiente ruminal”, explicam os pesquisadores Mirton José Frota Morenz, João Paulo Pacheco Rodrigues e Bruno Campos de Carvalho. A técnica pode apoiar estudos de fermentação e microbiota, avaliações de alimentos e aditivos e o monitoramento de mudanças no rúmen.
Como a cânula é usada
O dispositivo é colocado na fossa paralombar esquerda, região escolhida porque o rúmen ocupa grande parte desse lado da cavidade abdominal. As cânulas são feitas com materiais flexíveis e biocompatíveis.
O equipamento permite retirar a parte líquida do conteúdo ruminal e partículas sólidas de alimentos em diferentes fases da digestão. Também é possível introduzir amostras para avaliar a degradação durante o processo. Essas atividades contribuem para pesquisas sobre dietas e sistemas de produção.
Apesar da aparência, a abertura não permanece exposta. A cânula tem uma tampa, aberta somente durante a entrada ou a retirada de amostras. No restante do tempo, o acesso fica fechado, permitindo que o animal mantenha suas atividades normais.
Seleção e bem-estar dos animais
A técnica não é aplicada a qualquer vaca. Os animais passam por avaliação e precisam ser saudáveis, ter bom temperamento e apresentar condições de participar do experimento por um período prolongado.
Após a cicatrização completa e se não houver complicações, o animal pode voltar ao rebanho. Conforme a avaliação do responsável técnico, as condições do bovino e os protocolos aplicáveis, ele também pode continuar em produção e reprodução.
No Brasil, as pesquisas com fístula ruminal seguem a lei nº 11.794/2008, as normas do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA) e a Diretriz Brasileira para o Cuidado e a Utilização de Animais em Atividades de Ensino ou de Pesquisa Científica (DBCA).
As instituições precisam ser credenciadas e ter uma Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA). Os protocolos devem abranger a implantação da cânula, com anestesia e analgesia, além da recuperação pós-operatória, manutenção, alojamento, manejo e utilização experimental. Cada procedimento precisa ser submetido à avaliação e à autorização da comissão.








