CASTRO — A Chácara Ressaca, em Castrolanda, área rural de Castro (PR), tornou-se referência na produção de leite ao combinar controle financeiro, investimento em tecnologia e gestão familiar. A propriedade integra a Rota do Leite, iniciativa que apresenta aos visitantes modelos de negócio considerados eficientes na região dos Campos Gerais.
Vitalino Wacherski começou a atividade há mais de 40 anos. Na época, mantinha 32 vacas holandesas em lactação, com produção de 200 litros de leite por dia. Atualmente, o rebanho tem 175 animais e alcança média diária de 6.900 litros.
“Eu sou muito apaixonado pelo que faço e pelo rebanho que temos", afirma o produtor, que administra a fazenda com os três filhos. Ele responde pela área financeira e participa das decisões sobre cada investimento. A família mantém registros informatizados e anotações em papel para acompanhar custos e produção.
Investimento com recursos próprios
A principal regra financeira da propriedade é evitar dívidas. Wacherski afirma que os investimentos são feitos com recursos próprios. A exceção foram as placas de energia solar, parceladas diretamente com o fornecedor.
O planejamento começa pela avaliação do custo e da capacidade de compra da família. Antes de assumir uma despesa, os produtores analisam o poder aquisitivo disponível e organizam o desembolso.
Os indicadores de qualidade também sustentam o desempenho da fazenda. A contagem de células somáticas é de 90.000/mL, enquanto a contagem padrão em placas fica abaixo de 1.000 UFC/mL. Os resultados indicam boas condições sanitárias do rebanho e da ordenha e geram bonificação paga pela indústria.
Lariane Wacherski cuida da sanidade e da genética dos animais. Ela relaciona os resultados ao manejo, ao conforto do gado, à nutrição, aos cuidados durante a ordenha e à escolha de touros com alto valor genético. A meta é elevar a produção e aumentar a resistência a doenças, como a mastite.
Cada vaca produz, em média, cerca de 40 litros por dia. Para comparação, a Embrapa Gado de Leite estima uma faixa de 30 a 35 litros diários por animal em propriedades com sistemas intensivos e gado confinado.
Larissa Wacherski é responsável pela higiene e pela limpeza. A ordenha mecanizada ocorre duas vezes por dia, e as vacas em produção ficam em sistema free stall, com robô para empurrar a alimentação. A instalação acrescentou 1,5 litro à produção por animal. Larissa e a irmã também realizam as inseminações.
Marçal Wacherski conduz a produção da alimentação do rebanho. A propriedade utiliza 40 hectares para o cultivo de milho e azevém destinados à silagem e ao pré-secado. A produção própria reduz a necessidade de compra de fubá e ração. Mesmo assim, a nutrição corresponde a 71,84% do custo da atividade.
Estrutura e sucessão familiar
Recentemente, a família ampliou a sala de ordenha e construiu um barracão para armazenar produtos de nutrição, um silo de ração, além de novos espaços para escritório e sala de medicamentos. O próximo projeto é estender o sistema free stall para novilhas, vacas prenhas e animais destinados à inseminação.
A Chácara Ressaca também faz parte da programação da Agroleite, feira realizada anualmente pela Cooperativa Castrolanda. A Rota do Leite abre propriedades da região para mostrar práticas de produção e gestão.
Para Glauco Carvalho, economista e pesquisador da Embrapa Gado de Leite, produtores que acompanham custos, fazem controle leiteiro e investem em tecnologia têm melhores condições de permanecer na atividade. O controle leiteiro consiste em medir ou pesar periodicamente a produção de cada vaca para avaliar a produtividade e ajustar o manejo.
O número de propriedades dedicadas à bovinocultura leiteira no Brasil caiu de 874.500, em 2006, para 634.500, em 2017, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estimativas do Centro de Inteligência do Leite (CILeite), da Embrapa, apontam aproximadamente 513.000 propriedades em 2025, uma redução de 41,3% em quase 20 anos.
No mesmo período, a produtividade média passou de 1.105 litros por vaca ao ano, em 2000, para 2.362 litros, em 2024. A produção nacional subiu de 19,7 bilhões para 35,7 bilhões de litros em 24 anos.
Carvalho afirma que a busca por escala e competitividade favorece produtores mais eficientes. Ele estima que quem produz 500 litros por dia pode chegar a 1.000 litros ao dia com a mesma estrutura, diluindo custos fixos e obtendo preço melhor. Entre 70% e 80% dos produtores brasileiros de leite são classificados como pequenos, para os quais a tendência é de aumento da produção no curto prazo.
Crédito e eficiência
Christiano Nascif, diretor da consultoria Labor Rural, classifica o modelo dos Wacherski como conservador, mas ressalta que nem todos os produtores conseguem investir sem financiamento. A taxa Selic de 14% ao ano dificulta a situação de quem depende de crédito.
Para o consultor, o produtor de porte médio enfrenta maior risco por manter capital elevado na atividade e ter menos margem para interromper a produção. Entre os indicadores de eficiência, ele cita pastagem adequada, volumoso de qualidade, mais vacas em lactação por área, genética e reprodução bem conduzidas.
Nascif considera ideal um rebanho com 55% de vacas em lactação, 35% de fêmeas em cria e recria e 10% de vacas secas. Também recomenda manter pelo menos 45 vacas em lactação a cada 100 para garantir receita mínima mensal. A média brasileira, segundo ele, é de cerca de 20%.
Castro e Carambeí lideram a produção de leite nos Campos Gerais, com quase 800 milhões de litros ao ano, conforme a Pesquisa Pecuária Municipal do IBGE. O veterinário Gilberto Foltran, consultor da Elanco Saúde Animal, atribui parte dos níveis atuais de produtividade e qualidade ao melhoramento genético iniciado na região e às práticas de manejo que contribuem para a sanidade dos animais.








