SÃO PAULO — A Cargill avalia que o transporte hidroviário pode perder eficiência com a redução do nível dos rios e a possibilidade de um El Niño muito forte em 2026. O CEO da empresa no Brasil, Paulo Sousa, afirmou que a manutenção das hidrovias exige dragagem, desde que as intervenções sigam as regras ambientais.
A preocupação envolve principalmente os rios Tapajós e Madeira, que, segundo Sousa, só devem voltar a subir com as chuvas de dezembro. Atualmente, o transporte da Cargill ainda ocorre pelas hidrovias, mas o executivo teme uma repetição da paralisação completa registrada há dois ou três anos, provocada pelo baixo calado no Norte.
“Chega a um ponto em que a quantidade de carga que se coloca na barcaça é tão baixa que não vale a pena gastar o combustível”, explicou Sousa durante evento do Bradesco BBI, realizado nesta quinta-feira (10/9), em São Paulo.
Impacto sobre o Tapajós
A hidrovia é usada para levar grãos produzidos no Centro-Oeste aos portos do Arco Norte. No caso do rio Tapajós, o governo federal decidiu não fazer, neste momento, a dragagem de manutenção no trecho entre Itaituba e Santarém, no Pará.
A Casa Civil informou que a decisão foi tomada depois da avaliação de informações técnicas, de conversas entre órgãos envolvidos e da escuta de povos indígenas e comunidades tradicionais. Para o transporte de cargas maiores, o governo apontou a existência de fluxo rodoviário regular e a previsão de intervenções nas estradas caso seja necessário ampliar a circulação de caminhões.
A MoveInfra estima que até 5 milhões de toneladas de grãos podem deixar de ser transportadas pelo Tapajós sem a dragagem. A entidade também calcula que a substituição da hidrovia por rodovias pode elevar em R$ 850 milhões o custo de frete para o setor agrícola.
Sousa disse que a alternativa da Cargill, se o transporte por água ficar inviável, será levar cargas de caminhão até o porto de Santarém. O percurso tem uns 200 e poucos quilômetros de rodovia, segundo o executivo, e permite manter a operação, embora com menor eficiência.
O CEO afirmou ainda que a hidrovia pode ser o modal mais competitivo por exigir menor nível de investimentos, mas precisa de manutenção. Ele citou como exemplos a dragagem no rio Mississippi, nos Estados Unidos, no rio Danúbio, na Europa, e nos canais de acesso ao porto de Londres.
Estudos e obras
Também presente no evento, o ministro dos Transportes, George Santoro, afirmou que o país precisa ampliar os estudos sobre hidrovias. A modalidade está sob responsabilidade do Ministério de Portos e Aeroportos, e, na avaliação do ministro, pesquisas mais robustas podem ajudar a enfrentar questionamentos ambientais.
Santoro mencionou o rio Paraguai e disse que é preciso demonstrar que a dragagem não vai secar o Pantanal. Ele também avaliou que o desenvolvimento do setor exige mais maturidade, após um início sem organização semelhante à adotada em rodovias e ferrovias.
As obras do Pedral do Lourenço, no rio Tocantins, entre Itupiranga e Nova Ipixuna, no Pará, envolvem o derrocamento de rochas e são alvo de disputas jurídicas. Há mais de 20 comunidades ribeirinhas na região.
Sousa afirmou esperar que, nos próximos cinco anos, a Ferrogrão esteja em obras e que haja avanço no Pedral do Lourenço. O objetivo, segundo ele, é permitir que as hidrovias operem com as barcaças cheias, e não com carga abaixo da metade ou paradas por causa do baixo calado.








