A análise econômica e fiscal de 1.297 propostas dos seis candidatos mais bem posicionados na pesquisa Quaest do início de setembro concluiu que nenhum dos planos consegue estabilizar a dívida pública. O estudo foi elaborado pelo Ranking dos Políticos com base em um cenário da Instituição Fiscal Independente (IFI), traçado em junho de 2026.
Foram consideradas duas restrições em vigor: o limite de crescimento real das despesas previsto no arcabouço fiscal e a regra de ouro da Constituição. A IFI estima que seria necessário um superávit primário de 2,1% do PIB para estabilizar a dívida bruta. Para 2026, a projeção é de resultado primário de -0,4% do PIB. A diferença, de 2,5 pontos percentuais do PIB, equivale a cerca de R$ 342 bilhões ao ano antes da inclusão de novas promessas eleitorais.
Zema lidera, mas não alcança o equilíbrio
Romeu Zema ficou na primeira posição, com distância estimada de R$ 392 bilhões em relação à trajetória necessária para estabilizar a dívida, o equivalente a 2,9% do PIB. Augusto Cury aparece logo depois, com R$ 393 bilhões, também 2,9% do PIB. A diferença de R$ 1 bilhão entre os dois foi considerada um empate dentro da precisão do método.
Na sequência, estão Ronaldo Caiado, com R$ 411 bilhões, ou 3% do PIB; Luiz Inácio Lula da Silva, com R$ 452 bilhões, ou 3,3%; Renan Santos, com R$ 478 bilhões, ou 3,5%; e Flávio Bolsonaro, com R$ 496 bilhões, ou 3,6%.
O estudo ressalta que a liderança de Zema e Cury não significa suficiência fiscal. Entre os seis programas, os dois apresentam a menor distância em relação ao equilíbrio, mas todos afastam o país da estabilização da dívida. A distância média foi estimada em cerca de R$ 437 bilhões ao ano, ou 3,2% do PIB.
No caso de Zema, a possibilidade de autofinanciamento das medidas depende em grande parte de uma reforma previdenciária cujos efeitos mais expressivos ocorreriam depois do mandato. O candidato também propõe substituir o arcabouço fiscal, sem detalhar uma regra alternativa considerada suficiente pelo estudo.
Cury é o único, além de explicitar compromissos no programa, a estabelecer uma meta fiscal própria. A proposta de déficit primário próximo de zero, porém, não seria suficiente sozinha para estabilizar a dívida. Apenas 33% das propostas do candidato puderam ser classificadas, o que limita a comparação.
Classificação limitada das promessas
Caiado apresentou o plano considerado mais explícito sobre as consequências fiscais das medidas. A proposta prevê estimativa de impacto, fonte de financiamento e avaliação de compatibilidade com a trajetória da dívida para cada ação. O estudo identificou, porém, que a regra fiscal sugerida seria menos restritiva que a atual e não indica concretamente quais despesas seriam cortadas para financiar as medidas.
O plano de Lula ficou na quarta posição, com impacto estimado de R$ 452 bilhões. A análise apontou ampliação ou preservação de despesas públicas em diversas propostas, enquanto parte do financiamento deslocaria os custos para fora das despesas primárias. Somente 29% das propostas de Lula puderam ser classificadas.
Renan Santos teve a maior proporção de propostas classificáveis entre os seis candidatos, com 52% do total. Ainda assim, ficou em quinto lugar, com distância fiscal estimada em R$ 478 bilhões. Flávio Bolsonaro terminou na última posição, com R$ 496 bilhões. Apenas 32% das propostas dele puderam ser classificadas, e o estudo afirma que o resultado não representa uma avaliação completa do programa.
Das 1.297 propostas identificadas, 478, ou 36,9%, foram classificadas. Outras 819, equivalentes a 63,1%, ficaram na categoria “não se aplica”, principalmente pela falta de valores, prazos ou bases de cálculo suficientes. Os autores consideram que os valores calculados representam limites inferiores dos impactos fiscais dos programas.
Em uma simulação que atribui às propostas não mensuradas a mesma densidade fiscal das medidas classificadas, a distância em relação ao equilíbrio sobe para 3,5% do PIB no caso de Zema e chega a 6% no de Flávio Bolsonaro.
Regras para o controle de gastos
Lula e Cury são os únicos que declaram a intenção de manter o arcabouço fiscal atual. Os outros quatro candidatos propõem substituir a regra de controle de gastos. Em três casos — Renan Santos, Flávio Bolsonaro e Romeu Zem — não foram apresentados parâmetros suficientes para definir o novo mecanismo, deixando parte relevante do regime fiscal para ser estabelecida depois da eleição.
Caiado é o único a apresentar uma regra substituta explícita, mas ela é mais flexível que a vigente. O Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027 projeta crescimento nominal de 6,0% para as despesas obrigatórias, contra 7,4% do PIB nominal. Com isso, a regra proposta seria cumprida na projeção oficial sem nenhuma medida nova.
Para Juan Carlos Arruda, diretor-geral do Ranking dos Políticos, a avaliação mostra a necessidade de medir o custo das escolhas eleitorais. Daniel Galvêas, especialista em Políticas Públicas do Ranking dos Políticos e responsável pelo estudo, afirmou que a primeira colocação de Zema indica apenas a menor distância entre os planos comparados, e não uma solução fiscal suficiente.








