SÃO PAULO — Planilhas de prestação de contas do programa WiFi Livre, administrado pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), foram validadas pela Prefeitura de São Paulo apesar de apresentarem erros em endereços, CEPs e coordenadas geográficas. Os arquivos indicam pontos de internet fora da capital paulista, incluindo a Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, além de equipamentos registrados como ativos com datas de instalação no futuro.
O ICB recebeu mais de R$ 100 milhões para executar o serviço e é comandado por Karina Ferreira da Gama, dona da produtora responsável pelo filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. O contrato foi assinado em junho de 2024, durante a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), sob supervisão da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT).
As inconsistências dificultam confirmar onde cada equipamento foi instalado, quando entrou em funcionamento e qual é a cobertura dos pontos. O programa tem como objetivo ampliar o acesso à internet em áreas da periferia da capital.
Registros divergentes
Uma das planilhas foi enviada pelo ICB à prefeitura em 19 de janeiro de 2025 e reúne 2.673 pontos que teriam sido instalados entre agosto de 2024 e janeiro de 2025. A segunda contém 2.929 pontos e estava entre documentos apreendidos em 10 de junho de 2026 durante uma operação na SMIT. Os metadados indicam que esse arquivo pode ter sido criado em março de 2026.
As duas bases têm 2.673 registros em comum e a segunda inclui outros 256 pontos. Embora os endereços, CEPs e coordenadas correspondam aos mesmos equipamentos apresentados em 2025, as datas de instalação foram alteradas para 2026.
Na rua Emílio Castro, no Jardim Damasceno, um ponto aparece na primeira prestação de contas como instalado em dezembro de 2024 e com o link ligado. Na segunda planilha, o mesmo equipamento tem instalação prevista para dezembro de 2026, embora também esteja registrado como ativo.
As coordenadas de 37 pontos indicam locais fora de São Paulo, mesmo quando os endereços escritos apontam para a capital. Também foram identificados erros em CEPs de 17 pontos.
Um equipamento registrado na rua Angelo Bini, no Conjunto Residencial José Bonifácio, em Itaquera, tem endereço, bairro, CEP e subprefeitura compatíveis com a zona leste. As coordenadas, porém, levam à Ilha de Paquetá, no município do Rio de Janeiro. A latitude é -22,762988 e a longitude, -43,110262.
Outro ponto, informado como instalado no Jardim das Oliveiras, no Itaim Paulista, aparece com erro no nome da rua, registrada como “Rua Doutor José Pereira Gome”. As coordenadas levam a Jundiaí. Em um terceiro caso, a via aparece como “rua Travessa Barão Ferraz Uruquaiana”, enquanto as coordenadas apontam para Sorocaba.
Erros em CEPs e fiscalização
As planilhas também registram 16 pontos com CEPs de outros municípios: 15 códigos de Ferraz de Vasconcelos e um de Cotia. Outro equipamento, instalado em Cidade Tiradentes, aparece com o CEP 00941-465, que não corresponde a um código postal válido no país.
Há ainda variações na grafia de ruas, registros sem numeração e endereços indicados apenas por cruzamentos. Essas falhas podem impedir que os sistemas reconheçam corretamente os locais ou associem os pontos a outras cidades.
Mesmo com os problemas, a prefeitura prorrogou o contrato duas vezes, elevando o valor total para mais de R$ 157 milhões. O primeiro aditamento ocorreu em junho de 2025 e o segundo, em janeiro de 2026.
Em 16 de dezembro do ano passado, a SMIT recomendou a extensão do contrato por mais 12 meses e classificou como satisfatória a qualidade da parceria. O parecer afirmou que “A qualidade da execução foi rigorosamente verificada”, mas não há registro, nos processos administrativos analisados, de uma verificação técnica da instalação.
A secretaria afirmou que os pontos são fiscalizados periodicamente por monitoramento técnico e georreferenciado e que a execução foi comprovada por documentos e fotografias. Também disse que eventuais inconsistências cadastrais são comunicadas à instituição responsável.
Após a divulgação dos questionamentos, a prefeitura afirmou que “tais inconsistências pontuais não comprometem em nada a lisura e a correição da fiscalização do Termo de Colaboração”. O ICB declarou que as planilhas representam momentos distintos de atualização da base operacional e que a conferência deve considerar a versão mais recente enviada à SMIT.
O contrato é alvo de investigações da Polícia Federal e da Polícia Civil de São Paulo. Em relatório usado para uma operação determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino em 10 de setembro, a Polícia Federal apontou indícios de triangulação financeira de ao menos R$ 6,1 milhões entre empresas e entidades ligadas a Karina da Gama.
A Polícia Civil de São Paulo afirmou ter identificado “consistentes suspeitas” de desvio de recursos do WiFi Livre para financiar a produção de “Dark Horse”.









