O empresário Robert Carlos Lyra, presidente da Delta Sucroenergia, doou R$ 500 mil para a campanha de Flávio Roscoe e R$ 200 mil para a de Nikolas Ferreira, conforme dados da Justiça Eleitoral. Roscoe é pré-candidato do PL ao governo de Minas Gerais, enquanto Nikolas é deputado federal pelo partido.
Na campanha de Roscoe, Lyra foi o quarto maior doador individual. No caso de Nikolas, a contribuição representou 15.84% dos recursos registrados na relação apresentada pela Justiça Eleitoral. Roscoe é apontado como o nome do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para a disputa pelo governo mineiro.
A Delta Sucroenergia aparece também em registros de fiscalizações trabalhistas envolvendo fornecedores de cana-de-açúcar. Em 2021, uma operação do Ministério do Trabalho e Emprego identificou 45 trabalhadores em condições análogas à escravidão em plantações ligadas à cadeia de fornecimento da empresa.
Os auditores relataram que os trabalhadores, migrantes da Região Nordeste, enfrentavam problemas nos alojamentos, falta de saneamento e outras violações de saúde e segurança. As atividades ocorriam nas frentes de plantio manual da Usina Delta, na Fazenda São Domingos, arrendada pela companhia.
Condições encontradas nas plantações
De acordo com a fiscalização, a Delta dirigia, controlava e acompanhava o trabalho realizado no local. Os contratos com JJE Transporte e Transportes Eireli foram considerados inválidos pelos auditores, que os classificaram como um simulacro usado para esconder a relação de emprego. Com isso, a companhia foi responsabilizada pelas condições de trabalho e pelas obrigações trabalhistas e rescisórias.
Em quatro das cinco frentes vistoriadas, não havia banheiros. Homens e mulheres faziam suas necessidades no mato ou no canavial. As refeições eram feitas no chão, sob exposição ao sol, à poeira, ao vento e à chuva. Também faltavam mesas, cadeiras, abrigos adequados, recipientes para conservar os alimentos e água potável em quantidade suficiente.
Os trabalhadores precisavam comprar as próprias limas usadas para afiar os facões. A fiscalização registrou equipamentos de proteção rasgados, desgastados ou inadequados, além da falta de óculos de proteção. O pagamento por produtividade, segundo os auditores, estava associado a jornadas exaustivas e à redução frequente dos intervalos de descanso e alimentação.
Alojamentos e outros fornecedores
Quatro imóveis foram vistoriados: dois em Delta e dois em Sacramento, em Minas Gerais. Nenhum tinha camas. Os trabalhadores dormiam em colchões sobre pisos úmidos, em redes improvisadas ou diretamente no chão. Também não havia armários para guardar pertences.
Os relatos incluíram cobrança de R$ 200 pelo colchão e descontos salariais referentes às passagens desde Pernambuco e Maranhão, além de valores cobrados por panelas e gás de cozinha. Os banheiros eram improvisados e, em vários casos, não tinham portas. Alguns contavam apenas com lonas plásticas, e quase nenhum tinha chuveiro elétrico. Em um dos imóveis de Sacramento, 16 trabalhadores dividiam o mesmo espaço.
A equipe de fiscalização determinou o resgate dos trabalhadores. Em abril de 2022, outra fazenda fornecedora da usina foi fiscalizada, com o resgate de 34 pessoas em condições análogas às de escravo.
Em 2018, uma fiscalização encontrou uma criança de 13 anos e cinco adolescentes de 17 trabalhando em uma fazenda de cana-de-açúcar fornecedora da Delta, no Triângulo Mineiro. O episódio levou a uma ação civil pública do Ministério Público do Trabalho e a um acordo com a empresa em setembro de 2024.
Pelo acordo, a Delta se comprometeu a não comprar cana de produtores que utilizem trabalho infantil e a fiscalizar periodicamente seus fornecedores. Também foi definido o pagamento de R$ 200 mil por dano moral coletivo, destinado às vítimas das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.
Em seu relatório de sustentabilidade, a Delta afirmou que não participou dos casos relacionados aos fornecedores e que não tinha conhecimento dos acontecimentos. A empresa também declarou que não foi incluída na lista suja do trabalho escravo.
Flávio Roscoe, Nikolas Ferreira e a Delta Sucroenergia não responderam aos pedidos de manifestação sobre as doações e os fatos registrados nas fiscalizações até o fechamento do texto.







