A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira (16) deve levar a Selic a 13,75% ao ano, na quinta redução consecutiva. A previsão é compartilhada por economistas, mesmo com a expectativa de alta de juros em importantes bancos centrais no exterior.
A avaliação predominante é que a desaceleração da atividade econômica, a melhora da inflação corrente e a relativa estabilidade do câmbio deram espaço para o Banco Central manter o ciclo de cortes iniciado em março. Ainda assim, as projeções para a continuidade da flexibilização depois desta reunião não são uniformes.
Pressão internacional e cenário doméstico
A guerra no Oriente Médio elevou a incerteza sobre a inflação global. As cotações do petróleo voltaram a superar US$ 100 com a intensificação do conflito, enquanto a tendência de outros bancos centrais é elevar os juros.
O Federal Reserve deve aumentar nesta quarta-feira a taxa dos Estados Unidos para o intervalo entre 3,75% e 4%, ante a faixa atual de 3,5% a 3,75%. Também cresceram as apostas de que o Banco do Japão elevará sua taxa de referência de 1% para 1,25%. Na semana passada, o Banco Central Europeu aumentou a taxa de depósito em 0,25 ponto percentual, para 2,5% ao ano.
Para Henrique Danyi, economista do Santander, o Brasil chega a esta decisão em uma posição diferente porque manteve os juros em nível restritivo por mais tempo que outras economias. Ele aponta a atividade mais fraca, a melhora dos preços correntes e o dólar na casa de R$ 5,15 como fatores que recomendam uma atuação dependente dos dados, sem compromisso antecipado com os próximos passos.
O IPCA acumulado em 12 meses até agosto desacelerou para 4,22%, influenciado pela queda da conta de luz sob efeito temporário do bônus de Itaipu. As expectativas de inflação, porém, continuam acima da meta no médio e no longo prazo. As projeções para o IPCA de 2027 e 2028 estão em 4,3% e 3,8%.
Divergências sobre o fim do ciclo
Danyi considera que a trajetória do crédito e do mercado de trabalho é uma fonte importante de incerteza. Ele também menciona os possíveis efeitos do Super El Niño. Para o economista, ainda não está definido se a reunião desta quarta será a última com redução da Selic.
“Está ficando cada vez mais incerto se essa é a última reunião [de cortes] ou não”, afirma Danyi.
Andrea Damico, economista-chefe e CEO da Buysidebrazil, projeta um corte final de 0,25 ponto percentual nesta reunião, mas admite a possibilidade de novas reduções em novembro. Ela afirma que a desaceleração da atividade e a descompressão da inflação subjacente sustentam a hipótese de continuidade.
A economista também cita o desempenho da economia no segundo trimestre. O PIB avançou 0,5% na comparação com os três meses anteriores, mas o consumo das famílias recuou 0,4%. Segundo ela, o mercado de trabalho ainda é robusto, embora já apresente sinais de reversão.
A taxa de desemprego recuou para 5,3% no trimestre até julho, o menor nível para esse intervalo na série histórica iniciada em 2012, conforme dados do IBGE.
Avaliação de Fabio Kanczuk
Fabio Kanczuk, ex-diretor do Banco Central, avalia que o Copom considera os juros elevados o suficiente para provocar uma contração expressiva da economia no futuro. Na visão dele, essa leitura está equivocada e o colegiado não deveria continuar reduzindo a Selic se a prioridade fosse garantir a convergência da inflação à meta.
A meta tem centro em 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Apesar da crítica, Kanczuk considera certa a redução nesta quarta-feira. O próximo encontro do Copom está marcado para os dias 3 e 4 de novembro, depois do resultado das eleições.
“O Banco Central gosta de não aparecer nas eleições”, afirma o ex-diretor, ao dizer que a instituição deve evitar interferências no processo eleitoral.
Kanczuk não espera surpresas no comunicado e avalia que o Banco Central deve manter a possibilidade de ajustar os próximos passos. Ele estima que a Selic continuará caindo até o ano que vem, sem pausas. Uma nova crise fiscal, dependendo das eleições, poderia interromper o ciclo de queda.








