A Paladium Corp, hoje chamada de Pax IA, ampliou o capital social de R$ 20 para R$ 212 milhões após a entrada de uma holding dos Estados Unidos, aportes de empresas de tecnologia e contratos no Brasil. No mesmo período, órgãos de controle questionaram acordos ligados a sistemas de videomonitoramento em São Paulo, Goiás e Paraná.
A empresa foi fundada em julho de 2024. Três meses depois, passou a ter entre os sócios o empresário David Peixoto dos Santos e a Paladium Holdings LLC, sediada em Wilmington, Delaware, nos Estados Unidos. A holding é representada no Brasil por Sylvia Weiss Chan.
Houve aportes de R$ 38 milhões e R$ 50 milhões em novembro e dezembro de 2025. Em janeiro de 2026, o capital chegou a R$ 140,2 milhões e, atualmente, soma R$ 212 milhões. Em dezembro de 2025, a companhia também contratou Sandro Caron, ex-delegado da Polícia Federal e ex-secretário de Segurança Pública do Rio Grande do Sul.
Contratos e dados sensíveis
Em São Paulo, a Paladium forneceu tecnologia para o Muralha Paulista por meio da Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo (Prodesp). O governo paulista destinou R$ 476 milhões à estatal, que subcontratou a empresa após uma contratação por dispensa de licitação.
O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo abriu apuração sobre a chamada parceria em oportunidade de negócio. Para o conselheiro Dimas Ramalho, o plano apresentado era genérico e não detalhava a divisão dos recursos nem os critérios técnicos usados para defini-la. O acordo foi encerrado em junho por uma rescisão amigável, e o processo acabou arquivado pelo tribunal.
Em Goiás, o Ministério Público estadual questionou um contrato de R$ 183 milhões firmado pela estatal GoTech, antiga GoiásTelecom. O acordo foi suspenso por liminar e retomado em agosto após recurso da empresa. O programa IA Contra o Crime previa a ampliação de pouco mais de 400 para quase 5 mil câmeras, distribuídas por 194 cidades.
A plataforma poderia identificar placas, fazer reconhecimento facial e cruzar dados biométricos. A promotora Leila Maria de Oliveira afirmou que os sistemas seriam operados e processados pela empresa privada, apontando falta de conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados. A ação também registrou que a propriedade da tecnologia, do código-fonte, dos algoritmos e de outros ativos permaneceria com a Paladium.
Segundo o Ministério Público de Goiás, a GoTech recebeu R$ 304 milhões do governo e repassou quase 60% desse valor à Paladium. O órgão sustenta que a subcontratação não poderia superar 30%. O governo goiano contesta essa interpretação e afirma que houve uma parceria estratégica, e não subcontratação.
A mesma preocupação apareceu no Paraná. O Tribunal de Contas do Estado suspendeu um pregão eletrônico para aprimorar o programa Olho Vivo, que previa aproximadamente 20 mil novas câmeras. O conselheiro Fernando Augusto Mello Guimarães apontou risco no tratamento, em larga escala, de dados biométricos e comportamentais. A Paladium participava de uma etapa, mas não disputou diretamente o pregão.
Respostas das empresas e dos governos
A Pax IA afirma que a estatal é responsável pelo armazenamento e pela governança dos dados e que a empresa atua somente como operadora, seguindo as determinações do poder público. Também informou que os dados são armazenados no Brasil, que o reconhecimento facial é limitado a pessoas com mandado de prisão em aberto ou desaparecidas e que toda identificação exige confirmação humana.
A empresa citou ainda criptografia, autenticação multifator, controle de acesso por perfis, exclusão periódica de dados e auditorias de conformidade com a LGPD como medidas previstas nos projetos.
O governo de Goiás disse, por meio da GoTech, que os dados ficarão armazenados no Brasil e que os acessos serão monitorados. A administração informou que os dados brutos são descartados após 15 dias. O governo do Paraná afirmou que responde aos questionamentos sobre a licitação por meio da Superintendência-Geral de Governança de Serviços e Dados.
Em São Paulo, a Secretaria de Segurança Pública declarou que o contrato com a Prodesp foi cancelado em junho por razões técnicas e sem ônus para a pasta. A Pax IA disse que os procedimentos no estado foram arquivados e que não recebeu valores pela parceria.
A expansão dos sistemas ocorre enquanto governos defendem a ampliação do videomonitoramento. Lançado em 2024, o Muralha Paulista está no plano de governo de Tarcísio de Freitas para alcançar os 645 municípios paulistas em caso de reeleição. Em Goiás, Daniel Vilela promete ampliar o IA Contra o Crime para cidades do interior. O programa paulista já havia sido criticado por funcionar por mais de um ano e meio sem regulamentação definida para o uso dos dados.








