BRASÍLIA — Famílias que procuraram a médium Maira Rocha afirmam que cartas atribuídas a parentes mortos reproduziam informações disponíveis em redes sociais, documentos e registros públicos. A Polícia Civil do Distrito Federal mantém um inquérito sobre as denúncias.
Os relatos indicam que os interessados podiam esperar mais de dois meses pelas mensagens. Entre os casos analisados, o menor intervalo entre o fornecimento dos dados e a entrega da carta foi de 21 dias. O maior chegou a 68 dias.
Um grupo que participou de uma sessão em 28 de agosto de 2024 disse ter feito a inscrição 63 dias antes. Segundo os integrantes, as cartas já estavam prontas quando foram apresentadas. Eles também afirmaram ter encontrado detalhes semelhantes a informações disponíveis na internet e em documentos públicos.
Maira Rocha é fundadora da Casa de Caridade Inácio Daniel, na Área de Desenvolvimento Econômico de Águas Claras, no Distrito Federal. O trabalho passou a ser alvo de denúncias depois que famílias encontraram coincidências entre o conteúdo das mensagens e publicações feitas anteriormente na internet.
Relatos das famílias
A investigação ouviu dezenas de pessoas que frequentaram o local. Elas relataram mensagens com episódios familiares publicados abertamente, além de erros de parentesco, nomes de pessoas que não existem e informações incompatíveis com a história dos destinatários.
Em um caso, um homem de 52 anos recebeu uma carta atribuída à mãe falecida. O texto mencionava uma lembrança sobre a oração Salve Rainha e o uso de uma régua para ensiná-la aos filhos. A mesma informação aparecia em um comentário publicado no perfil da mulher no Facebook.
A família também identificou referências à formatura de um filho, à semelhança física entre mãe e filho e a informações compartilhadas em uma comunidade de ciclistas. Ao mesmo tempo, a carta apresentava um erro de parentesco e usava apelidos que, segundo os familiares, só eram adotados nas redes sociais.
Outro relato envolve uma mensagem atribuída a uma avó. O texto citava uma festa de 15 anos de uma neta e fazia referência ao cabelo de um neto. As informações haviam sido publicadas pela própria mulher no Facebook quando ainda estava viva.
Fábia, nome fictício usado para preservar a identidade da entrevistada, procurou a instituição após perder o pai e, cerca de um ano e meio depois, a mãe. Ela e as irmãs passaram a atuar como voluntárias no local e receberam mensagens atribuídas aos pais.
A família começou a desconfiar quando Maira afirmou ter conversado com a mãe de um auxiliar de uma médium do Rio de Janeiro. O homem disse que a pessoa descrita não era sua mãe, mas a médium com quem trabalhava e que aparecia ao lado dele em uma foto publicada na internet.
Na revisão de outras cartas, os familiares encontraram uma mensagem que dizia que a mãe havia comparecido em espírito ao casamento de um filho, embora ainda estivesse viva na época da cerimônia. Outro texto citava vários netos, excluía dois e incluía Júlio, nome que, segundo os parentes, não correspondia a nenhuma pessoa da família.
Os familiares também afirmaram ter localizado referências a informações empresariais disponíveis em registros públicos, incluindo dados ligados ao CNPJ de uma loja da família.
Regras da instituição
No site da Casa de Caridade Inácio Daniel, o serviço de psicografia é descrito como gratuito. As regras informam que o interessado deve registrar o nome em um livro durante uma sessão e voltar posteriormente ao local, sem garantia de receber uma mensagem.
Maira Rocha foi procurada durante a apuração das denúncias. No sábado (5), afirmou que não pretendia comentar as acusações e disse que poderia processar pessoas que divulgassem denúncias contra ela.
As famílias levaram os relatos à Polícia Civil do Distrito Federal. As suspeitas investigadas envolvem o possível uso de informações pessoais disponíveis em redes sociais, registros públicos e outras fontes na preparação das cartas atribuídas a pessoas mortas.








