Flávio Bolsonaro afirmou, durante ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista, que seus adversários poderiam tentar uma nova agressão contra sua família. O senador disse que faria campanha usando colete à prova de balas e declarou: “Vão tentar uma terceira facada”.
Na interpretação apresentada por Flávio, o ataque contra Jair Bolsonaro em 6 de setembro de 2018, em Juiz de Fora, foi a primeira facada. A segunda seria a condenação e a prisão do ex-presidente por tentativa de golpe de Estado. A terceira poderia ser uma tentativa de interferência nas eleições de 2026 ou um novo atentado. Ele não apresentou evidências de que uma interferência eleitoral esteja sendo preparada.
A Polícia Federal concluiu que Adélio Bispo de Oliveira agiu sozinho no episódio de Juiz de Fora. Essa é a conclusão oficial sobre a participação de terceiros na execução do ataque. O inquérito, porém, não examinou algumas hipóteses e circunstâncias apontadas como relevantes para esclarecer a trajetória de Adélio e seus contatos políticos.
Filiação partidária e contatos políticos
Adélio foi filiado ao PSOL entre 2007 e 2014, mas já não integrava o partido em setembro de 2018. Entre seus pertences, apreendidos em uma pensão de Juiz de Fora, havia um documento de 2016 em que ele solicitava a desfiliação do PSD em Uberaba.
O documento indica que Adélio acreditava ter vínculo com o PSD. O partido informou depois que a filiação não havia sido formalizada, mas reconheceu que ele frequentava o diretório. Uma das principais figuras da legenda em Uberaba era Marcos Montes, então deputado federal ligado à bancada ruralista.
Também foi encontrado um cartão de visitas de Montes, com seu telefone celular. Mais tarde, Montes ocupou a Secretaria-Executiva do Ministério da Agricultura e o cargo de ministro da Agricultura no governo de Jair Bolsonaro. A existência do cartão não é apresentada como prova de participação de Montes no ataque.
As informações, no entanto, contradizem a imagem de Adélio como um militante exclusivamente ligado à esquerda. Em suas redes sociais, ele defendia a redução da maioridade penal, criticava Renan Calheiros, então presidente do Senado, e apoiava a participação de militares em centros para jovens. Em 2015, criticou a falta de avanço de uma proposta que reduzia de 18 para 16 anos a maioridade penal. Jair Bolsonaro estava entre os autores da proposta.
Adélio também se posicionava contra a criminalização da homofobia e atuava como pregador evangélico. Depois de fazer um curso de tiro no clube .38, passou a publicar ataques contra Bolsonaro. Esses elementos não o tornam bolsonarista nem afastam sua responsabilidade pelo ataque, mas mostram uma trajetória política mais contraditória do que a versão de um militante de esquerda enviado para matar o então candidato.
Pontos que não foram aprofundados
Em 5 de julho de 2018, cerca de dois meses antes do ataque, Adélio fazia um curso de tiro no clube .38, em Florianópolis. Na mesma data, Carlos Bolsonaro estava na cidade. Carlos era associado ao clube havia cerca de três anos e havia sido homenageado por ele na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. O vereador afirma que não esteve no local naquele dia.
As imagens das câmeras de segurança do clube não foram entregues. Representantes do .38 prestaram depoimento à Polícia Federal, mas não foram questionados sobre uma possível presença de Carlos Bolsonaro. A corporação também não examinou, por meio do telefone celular, o deslocamento dele na cidade.
No dia 6 de setembro, em Juiz de Fora, imagens registraram Adélio se aproximando de Carlos. O filho de Jair Bolsonaro entrou em um carro e fechou a porta. Mais tarde, reconheceu publicamente o episódio. A sequência não foi aprofundada para afastar dúvidas sobre o encontro.
A hipótese de um autoatentado também não foi investigada. Um policial federal que trabalhou no caso considerou essa possibilidade “plausível”, mas afirmou que não havia condições políticas para avançar nessa direção. A identidade dele foi preservada.
O delegado Rodrigo Morais, responsável pela investigação, avaliou em 2021 que seria plausível examinar essa hipótese caso o inquérito avançasse. Ele chegou a considerar um pedido de autorização para uma perícia médica em Jair Bolsonaro. Isso não comprova a ocorrência de um autoatentado, mas indica que uma possibilidade considerada por integrante da investigação não foi esgotada.
Segurança e estrutura de inteligência
Marcelo Bormevet, policial federal que teve papel relevante na segurança de Bolsonaro em Juiz de Fora, posteriormente chegou à Agência Brasileira de Inteligência. Luiz Felipe Barros Félix, que também estava próximo de Bolsonaro naquele dia, passou pela estrutura do governo.
Bormevet coordenou um esquema paralelo de segurança durante a visita, embora essa não fosse sua atribuição formal, e exigiu que a Associação Comercial e Empresarial de Juiz de Fora contratasse uma empresa para registrar o trajeto por drone. A íntegra das imagens não foi localizada; uma versão editada, com cortes, foi usada na propaganda bolsonarista.
Anos depois, Bormevet e Barros Félix apareceram no caso da chamada Abin paralela, estrutura clandestina investigada pela Polícia Federal por espionagem política durante o governo Bolsonaro. Bormevet ocupou cargo de chefia na agência, enquanto Barros Félix foi relacionado a uma operação de monitoramento envolvendo um ex-sócio de Jair Renan Bolsonaro.
Essas conexões posteriores não demonstram participação dos policiais no episódio de 2018. Também não eliminam a necessidade de examinar os fatos relacionados à segurança daquele dia.
Ao retomar o caso na Paulista, Flávio associou o ataque de Juiz de Fora a uma sequência de agressões políticas contra sua família. A Polícia Federal respondeu à pergunta sobre a existência de cúmplices identificáveis na execução do ataque e concluiu que Adélio agiu sozinho.
Continuam sem resposta, porém, questões sobre a passagem de Adélio pelo PSD, o cartão de Marcos Montes, a presença de Carlos Bolsonaro em Florianópolis, as imagens do clube .38, a hipótese de autoatentado e a atuação posterior de integrantes da segurança de Jair Bolsonaro. Fazer essas perguntas não significa afirmar que houve conspiração. Significa distinguir a conclusão oficial sobre a ação de terceiros das hipóteses que não foram plenamente testadas.








