Em 2025, oito dos nove estados da Amazônia Legal registraram 200 feminicídios. Em 90% dos casos, as vítimas não tinham medida protetiva ativa no momento da morte. Os dados foram solicitados às Secretarias de Segurança Pública dos estados da região; o Pará não respondeu.
Rondônia registrou 25 feminicídios e, em todos os casos, as mulheres não tinham medida cautelar quando foram assassinadas. Apenas 10 das 25 vítimas tinham registros de denúncias anteriores, conforme a Secretaria de Segurança Pública do estado.
No Brasil, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025, mais de quatro por dia. O número representa aumento de 4,7% em relação a 2024.
Estados amazônicos concentram maiores taxas
Seis dos dez estados com as maiores taxas de feminicídio do país estão na Amazônia Legal. O Acre liderou o ranking em 2025, com 3,2 mortes por 100 mil mulheres, mais que o dobro da média brasileira, de 1,4. Rondônia registrou taxa de 2,9, Mato Grosso teve 2,7 e Tocantins, 2,5.
A professora Luanna Thomaz, da Universidade Federal do Pará (UFPA), relaciona as taxas mais altas, entre outros fatores, à concentração dos serviços de proteção nas capitais. Segundo ela, cidades do interior não contam com infraestrutura adequada para atender mulheres em situação de violência.
Thomaz também afirma que o feminicídio é influenciado por fatores culturais, religiosos e geográficos. Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que a taxa do crime é maior em cidades com até 50 mil habitantes do que em capitais ou municípios maiores.
A medida protetiva é uma ordem judicial que pode impedir a aproximação do agressor. Em alguns casos, inclui monitoramento eletrônico e acolhimento para a mulher e os filhos. Em Rondônia, três mulheres assassinadas em 2025 tiveram medida protetiva em algum momento do ciclo de violência. Uma foi revogada e duas foram extintas antes do feminicídio, informou a Secretaria de Estado de Comunicação.
Distância dificulta acesso à proteção
O relatório Socioeconômico da Mulher 2026, elaborado pelo Observatório da Igualdade de Gênero e pelo Ministério das Mulheres, aponta a insuficiência de equipamentos de proteção nos sete estados da região Norte. Juntos, eles têm 66 delegacias especializadas, 19 juizados e varas especializadas, dez núcleos de Defesa nas Defensorias Públicas, 17 casas abrigo e 13 Patrulhas Maria da Penha.
A diretora de Pesquisa do Instituto Igarapé, Melina Risso, avalia que o enfrentamento à violência na região ainda é inicial. Ela cita fatores culturais e ambientais e afirma que defensoras ambientais passaram a sofrer violência de gênero com maior intensidade à medida que assumiram a liderança na defesa de seus territórios.
Para pedir proteção, a mulher pode procurar uma delegacia especializada, uma delegacia comum ou diretamente a Justiça. Em áreas indígenas e ribeirinhas, porém, o deslocamento pode exigir horas de barco, avião e caminhada. Luanna Thomaz afirma que, em alguns locais, também faltam intérpretes para facilitar a comunicação entre a vítima e as autoridades.
No Amazonas, Ana Tavares, de 20 anos, foi encontrada morta em um quarto de pousada em Barcelos, a 400 km de Manaus. A Promotoria de Justiça de Barcelos informou que os exames apontaram morte por asfixia e que a cena foi alterada para simular um suicídio. O Ministério Público ofereceu denúncia contra o suspeito e pediu a prisão preventiva, mas o Poder Judiciário aplicou medidas cautelares diferentes da prisão.
Em Porto Velho, Priscila Pereira foi assassinada em 2020 pelo marido, o sargento da Polícia Militar Edmundo do Amaral, que depois tirou a própria vida. Segundo a prima Cíntia Tatiele Pereira, Priscila havia relatado agressões psicológicas e físicas e já tinha denunciado o marido, mas não possuía medida protetiva quando morreu.
No Amapá, Ingridy Cordeiro foi morta em 2020 pelo então namorado. O condenado foi preso um ano depois e recebeu pena de 27 anos de prisão. A mãe da vítima, Ivonete Silva, passou a cuidar das netas.
A concentração dos serviços nas capitais e o isolamento de comunidades do interior dificultam a denúncia e o cumprimento das medidas protetivas. Para Luanna Thomaz, muitas mulheres enfrentam obstáculos tanto para solicitar a proteção quanto para garantir que ela seja efetivamente cumprida.








