A criação de abelhas pode ajudar a conservar espécies nativas e, ao mesmo tempo, gerar renda para produtores. Essa é uma das estratégias apontadas por Marcos Jacob, pesquisador que atua na transferência de tecnologia da Embrapa Meio-Norte, diante das ameaças às populações de polinizadores.
Na meliponicultura, voltada às abelhas sem ferrão, os criadores mantêm colônias em caixas e ajudam a preservar insetos que perderam parte de seus abrigos naturais. Em Bela Vista do Piauí, meliponicultores trabalham com uma abelha conhecida como mansa. A iniciativa reúne cerca de 1.500 colônias e 60 sócios.
Além de fornecer mel, a atividade mantém as abelhas distribuídas pela região. As colônias continuam participando da polinização de lavouras e da vegetação nativa da Caatinga. O desafio é garantir que esse trabalho seja financeiramente sustentável, já que as abelhas sem ferrão formam enxames menores e produzem menos mel que a Apis. Embora o produto tenha maior valor, a receita pode não ser suficiente para manter os criadores na atividade.
Jacob defende o pagamento por serviços ambientais como forma de remunerar os produtores também pela conservação das espécies e pela manutenção da polinização.
Pressões sobre as colônias
As abelhas enfrentam perda de habitat, exposição a venenos e mudanças climáticas. O aquecimento global modifica o período e a intensidade da floração, afetando a oferta de néctar e pólen. A chuva em excesso também pode retirar esses recursos das flores, diluir o açúcar do néctar e dificultar o voo dos insetos.
O pesquisador afirma que a falta de alimento compromete diretamente a sobrevivência das colônias. Quando a floresta deixa de oferecer recursos suficientes, cai também a quantidade de enxames que o ambiente consegue sustentar.
O uso de agrotóxicos é outra fonte de pressão. Embora muitos produtores adotem boas práticas, Jacob relata redução no número de insetos em regiões submetidas a pulverizações em escala, principalmente aéreas.
O desmatamento seletivo também afeta as abelhas. A retirada de árvores específicas para venda de madeira ou uso como lenha pode passar despercebida em imagens de satélite, que nem sempre identificam a remoção de determinadas espécies quando a área continua coberta por vegetação.
Árvores de troncos mais grossos estão entre as que florescem no período seco e muitas têm ocos usados como abrigo. A retirada delas diminui tanto a oferta de alimento quanto os locais disponíveis para a formação de colônias.
Por que a diversidade importa
A função das abelhas na polinização depende das características de cada espécie e das plantas com as quais elas se relacionam. A presença de uma abelha em uma flor não garante que o pólen esteja sendo transportado: o inseto pode estar apenas retirando néctar ou pólen para se alimentar.
A anatomia também interfere. Uma abelha pode não alcançar o pólen localizado em determinadas estruturas da flor nem levá-lo até outra planta. Jacob cita a Apis, que não consegue acessar o pólen situado na ponta de estruturas muito finas de algumas flores.
A polinização também conta com formigas, mariposas, morcegos e borboletas, mas nenhum desses grupos consegue substituir completamente a diversidade de funções desempenhadas pelas abelhas. A relação entre insetos e plantas foi construída ao longo de milhões de anos, o que impede que uma única espécie assuma o papel de todas as demais.
Produção de alimentos
Uma eventual extinção das abelhas afetaria a reprodução de várias plantas, a oferta de alimentos e o equilíbrio ambiental. Para Jacob, porém, os danos já aparecem com a redução das populações, antes mesmo de um desaparecimento completo.
A menor quantidade de colônias reduz a capacidade de regeneração da natureza e prejudica espécies nativas que dependem de determinadas abelhas. Por isso, o pesquisador considera necessário conciliar atividades econômicas e conservação.
Na apicultura, baseada principalmente na Apis, os produtores obtêm mel, pólen e própolis. A espécie é exótica e não participa de todas as relações existentes entre plantas e abelhas nativas, mas já está naturalizada no Brasil. Entre as alternativas estão o zoneamento em áreas de preservação e faixas de controle para capturar colônias e transferi-las a locais seguros, reduzindo conflitos com espécies nativas.
Para Jacob, a Embrapa deve buscar soluções tecnológicas capazes de reduzir esses efeitos ou retardar seu avanço até que seja encontrada uma solução plena.








