BRASÍLIA — A campanha de Flávio Bolsonaro para a Presidência tenta apresentar o senador como uma versão mais moderada do pai, Jair Bolsonaro, mas enfrenta questionamentos sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro e acusações antigas ligadas ao período em que foi deputado estadual no Rio de Janeiro.
Flávio passou a explorar nas redes sociais a imagem de um político capaz de dialogar com grupos além do eleitorado bolsonarista. Em um vídeo publicado em abril, sua esposa, Fernanda, afirmou que o marido era um Bolsonaro moderado e disse ter contribuído para essa mudança. O senador também se descreveu como o Bolsonaro que tomou vacina, em contraste com a postura do pai durante a pandemia de covid-19.
A estratégia busca preservar o apoio herdado de Jair Bolsonaro e, ao mesmo tempo, atrair eleitores que rejeitam o estilo e posições extremas do ex-presidente. Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio aparecem como os candidatos mais fortes em um eventual segundo turno, com empate apontado pelo agregador de pesquisas mencionado no levantamento.
O caso Vorcaro
A estratégia sofreu pressão após a divulgação de conversas entre Flávio e Daniel Vorcaro. O senador teria cobrado do banqueiro a liberação de recursos para a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro. O financiamento teria alcançado R$ 134 milhões, dos quais ao menos R$ 61 milhões teriam sido repassados no ano passado.
Vorcaro está preso e negocia um acordo de delação premiada com potencial para atingir altas autoridades. Flávio nega irregularidades e afirmou que buscava patrocínio privado para uma obra privada sobre a história do pai. Também disse que não ofereceu vantagens, não promoveu encontros fora da agenda, não intermediou negócios com o governo e não recebeu dinheiro ou benefício.
Para Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel, o episódio dificulta a tentativa de reduzir a rejeição associada ao sobrenome Bolsonaro e a acusações de corrupção. Na avaliação dele, o caso interrompeu o processo de construção da imagem moderada.
Pesquisas e disputa pelo centro
A pré-campanha atribui parte da alta nas intenções de voto ao discurso voltado a jovens, mulheres e setores da classe média. Levantamentos do instituto Quaest indicaram, entre dezembro e maio, crescimento de nove pontos percentuais entre eleitores de 16 a 34 anos, chegando a 45%, contra 38% de Lula.
Entre eleitores com renda entre 2 e 5 salários-mínimos, Flávio avançou seis pontos e chegou a 44%, enquanto Lula marcou 40%. Entre as mulheres, passou de 31% para 36%, ainda atrás do petista, que registrou 45% no levantamento de maio. Uma pesquisa divulgada em 13/5 apontou pequena reversão de parte desses avanços, antes da divulgação das conversas com Vorcaro.
Sanches estima que exista uma parcela de 10% a 12% do eleitorado sem alinhamento automático com Lula ou com o bolsonarismo. Esse grupo, segundo ele, pode decidir a eleição mais perto da votação e não necessariamente manter uma intenção de voto registrada durante a pré-campanha.
Rachadinha e vínculos no Rio
Além do episódio envolvendo Vorcaro, Flávio precisa responder a acusações relacionadas ao período em que ocupou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ele exerceu o mandato de 2003 a 2018 e nega suspeitas de desvio de verba parlamentar, compra de imóveis com dinheiro vivo e vínculos com o miliciano Adriano da Nóbrega.
O Ministério Público acusou Fabrício Queiroz, então chefe de gabinete de Flávio, de operar um esquema que recolhia parte dos salários de funcionários. Segundo a denúncia, 12 funcionários fantasmas receberam R$ 6,1 milhões em valores da época. O órgão afirmou que ao menos R$ 2 milhões foram para a conta de Queiroz e que outros R$ 2 milhões foram disponibilizados por meio de saques em espécie.
A acusação também apontou depósitos fracionados na conta de Flávio e de sua esposa, além do pagamento, por Queiroz, de 169 boletos relacionados à escola das filhas do senador e ao plano de saúde da família. Os pagamentos somaram R$ 247 mil em valores da época.
Flávio afirma que nunca respondeu criminalmente pelo caso e sustenta que os recursos eram usados por Queiroz para contratar informalmente pessoas que atuavam em apoio ao mandato. O processo foi paralisado por decisões judiciais. O Superior Tribunal de Justiça anulou decisões que permitiram a quebra de sigilos bancário e fiscal, e o Supremo Tribunal Federal anulou relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras que embasaram a investigação.
O Ministério Público do Rio de Janeiro informou que o caso foi encerrado após o ministro Gilmar Mendes rejeitar, em fevereiro de 2025, um pedido de reabertura da investigação.
Adriano da Nóbrega foi homenageado por Flávio em 2003 e 2005, quando ainda era policial militar. A mãe e a então esposa de Adriano trabalharam no gabinete do senador na Assembleia Legislativa. Flávio afirma que não conhecia as atividades criminosas atribuídas ao policial e rejeita qualquer defesa da atuação de milícias.
A imagem moderada em disputa
A campanha também tenta marcar distância de posições conservadoras associadas ao ex-presidente. Flávio publicou conteúdos sobre a importância do Carnaval para a economia e, no Dia da Mulher, abordou feminicídios, falta de creches e figuras históricas da luta pelos direitos femininos.
A senadora Damares Alves avalia que Flávio não procura parecer moderado, mas que esse seria seu perfil. Ela atribui parte de seu crescimento ao sentimento antipetista e à frustração com o desempenho econômico do governo Lula.
No campo petista, a estratégia é afirmar que não existe Bolsonaro moderado. Um vídeo divulgado pelo deputado Lindbergh Farias classificou Flávio como integrante da extrema-direita e citou declarações sobre a possibilidade de uso da força para garantir anistia ou indulto a Jair Bolsonaro, caso o Supremo Tribunal Federal considere a medida inconstitucional.
Também há críticas dentro da direita. Após uma conversa pública entre Flávio e o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, a vereadora Janaína Paschoal afirmou que o senador não seria moderado, mas fraco, e defendeu outros nomes para a disputa presidencial.
O desafio da campanha é manter a mobilização do eleitorado bolsonarista sem ampliar a rejeição entre os eleitores que associam Flávio às denúncias contra seu antigo gabinete e à proximidade com pessoas acusadas de envolvimento com milícias.









