Alianças entre antigos adversários passaram a marcar a disputa eleitoral de 2026 em diferentes estados. No Ceará, Ciro Gomes (PSDB) se uniu ao Partido Liberal (PL), sigla ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, para concorrer ao governo estadual. A articulação reúne também lideranças que estiveram no campo oposto ao candidato, como André Fernandes (PL) e Capitão Wagner (União Brasil).
A aproximação ocorre apesar do histórico de confronto. O Partido Democrático Trabalhista (PDT), antiga legenda de Ciro, moveu a ação que tornou Bolsonaro inelegível por oito anos. Em declarações anteriores, Ciro havia chamado o ex-presidente de “corrupto”, “fascista”, “incompetente”, “imitador de Trump” e “ladrão de galinhas”.
Em 22 de julho, Ciro publicou um vídeo nas redes sociais para agradecer ao PL pela aliança. Contra Elmano de Freitas (PT), que busca a reeleição, a frente adotou o mote: “É hora de união para mudar os rumos do Ceará”.
A parceria provocou reação dentro do próprio PL. Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e candidata ao Senado pelo Distrito Federal, afirmou estar insatisfeita por considerar Ciro o principal responsável pelo processo que resultou na inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Ela também lembrou críticas dirigidas por Ciro ao ex-presidente e aos filhos dele.
Capitão Wagner reconheceu o histórico de disputas, mas defendeu a composição. “Eu e Ciro estivemos em lados opostos e tivemos embates muito duros”, disse, acrescentando que os dois teriam colocado os interesses do Ceará acima de mágoas pessoais. Ciro Gomes e André Fernandes foram procurados por email e telefone, mas não responderam.
Mudanças de lado em outros estados
A aproximação entre Ciro e antigos opositores não é um caso isolado. Em Minas Gerais, Alexandre Kalil (PDT) e Aécio Neves (PSDB) passaram a integrar o mesmo arranjo político. Em 2016, Kalil disputou a Prefeitura de Belo Horizonte contra João Leite (PSDB), apoiado pelo grupo de Aécio. Naquele período, criticou duramente o tucano e declarou ter tido “vontade de matar” o deputado.
Dez anos depois, Kalil se lançou candidato ao governo de Minas Gerais, e o PSDB entrou na chapa após articulação de Aécio. O ex-deputado federal Carlos Mosconi (PSDB) foi anunciado como candidato a vice-governador. Aécio chegou a ser cogitado para disputar o Senado, mas informou, em 4 de agosto, que não concorreria a cargos em 2026.
Kalil reconheceu a mudança na relação e afirmou que havia atacado Aécio em 2016. Também disse que não guardava mágoa e classificou a aproximação como uma decisão política. Kalil informou que não comentaria o assunto. Aécio foi procurado pelo email oficial do gabinete na Câmara dos Deputados e pela assessoria, mas não respondeu.
No Distrito Federal, José Roberto Arruda (PSD) e Maria de Lourdes Abadia (PSD) voltaram a dividir espaço político depois de quase 20 anos. Os dois foram adversários na eleição de 2006, quando Abadia buscava a reeleição ao governo e acabou derrotada por Arruda.
Em março, Abadia se filiou ao PSD, partido que abriga o projeto de Arruda de retornar ao Palácio do Buriti. Ela passou a participar das articulações para 2026 e apareceu ao lado do ex-governador em encontros partidários e na convenção que confirmou a candidatura dele. Abadia não respondeu aos questionamentos enviados ao perfil oficial nas redes sociais.
Disputas municipais também deram lugar a alianças
Em Lauro de Freitas (BA), Débora Régis (União Brasil) e Antônio Rosalvo (PT) trocaram acusações durante a eleição de 2024. Débora venceu a disputa por 60% a 40%. Dois anos depois, os antigos adversários estão aliados.
Durante a campanha, Rosalvo afirmou que iria “tapar a boca” de Débora ao responder a críticas sobre problemas do município. Ela o acusou de explorar o fato de ser mulher na política. Rosalvo também mencionou um tiro que atingiu um de seus aliados e pediu que a disputa não fosse marcada pela violência.
Em 2026, Rosalvo deixou a base do PT, filiou-se ao PSDB e passou a integrar o grupo político de ACM Neto, vice-presidente nacional do União Brasil. Candidato a deputado estadual, ele recebeu apoio público de Débora. Em agosto, durante evento em Lauro de Freitas, ela defendeu a candidatura dele à Assembleia Legislativa da Bahia.
Rosalvo afirmou que a expressão usada na campanha era uma figura de linguagem ligada à disputa política e à resposta administrativa. Débora foi procurada por email, telefone da prefeitura e redes sociais, mas não respondeu.
No Rio de Janeiro, Wilson Witzel (Democrata) desistiu da candidatura ao governo e declarou apoio a Anthony Garotinho (Republicanos). Witzel havia lançado a pré-candidatura ao Palácio Guanabara em julho, mas retirou o nome em 1º de agosto, durante a convenção estadual do Democrata.
A justificativa foi eleitoral: formar uma frente capaz de levar Garotinho ao segundo turno. Os dois já haviam trocado críticas. Witzel recorria à experiência como juiz para questionar o adversário, enquanto Garotinho dizia que ele tinha “problemas de corrupção”. Ao anunciar o apoio, Witzel citou uma história de injustiças e afirmou que processos que levaram Garotinho à prisão haviam sido anulados pela Justiça.
Witzel e Garotinho foram procurados por email, telefone e redes sociais, mas não responderam.








