A capacidade dos viveiros de mudas nativas ainda está distante do necessário para cumprir a meta brasileira de restauração florestal. Atualmente, o setor consegue entregar 300 milhões de unidades por ano, mas precisaria alcançar 1,25 bilhão de mudas anuais para atender pelo menos 30% do objetivo previsto na NDC, segundo a Nativas Brasil.
Desde 2015 até novembro de 2025, as atividades de restauro alcançaram 204 mil hectares, conforme dados compilados pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. O país tem pouco mais de três anos para restaurar 12 milhões de hectares e cumprir os compromissos estabelecidos na Contribuição Nacionalmente Determinada.
Demanda cresce, mas encomendas são irregulares
A procura por mudas aumentou nos últimos anos. A Fazenda Anauá, em Caravelas (BA), dobrou a capacidade produtiva no ano passado. Segundo Hudson Freire Laviola Filho, biólogo responsável pela propriedade, o movimento refletiu o que ocorre no Brasil e no exterior.
Rodrigo Ciriello, presidente da Nativas Brasil, associação criada há cinco anos e que reúne 150 associados, afirmou que a demanda recebida neste ano ficou acima do padrão. Em algumas regiões, começou a faltar muda. A continuidade das chuvas desde o outono também manteve os plantios em andamento.
A organização das compras, porém, continua sendo um problema. Grandes projetos costumam encomendar mudas apenas quando começa a chover, enquanto os viveiros precisam iniciar a produção em janeiro. No ano passado, levantamento da associação apontou ociosidade de 50% nos viveiros brasileiros. Entre as mudas produzidas dentro dessa capacidade, há unidades que não chegam a ser vendidas em proporção de 30%, por falta de compatibilidade entre oferta e demanda.
Crédito ainda não chega com facilidade
A preparação para uma eventual alta nas encomendas exige capital para comprar substrato, adubo e tubetes, além de pagar mão de obra, energia elétrica e, em alguns casos, água. O acesso ao Plano Safra e às linhas tradicionalmente oferecidas ao agronegócio é mais difícil para os viveiristas, que temem contratar recursos sem garantia de venda da produção.
Ciriello também apontou falta de informação sobre as opções disponíveis. O desconhecimento aparece tanto entre empresas quanto entre gerentes de bancos, mesmo quando existem linhas acessíveis aos viveiros.
A atividade ainda depende de planejamento porque a produção de espécies nativas não segue um padrão industrial. As mudas são obtidas a partir da coleta de sementes na floresta, e a oferta pode variar conforme as chuvas e a frutificação das árvores.
Recursos do BNDES
Em pouco mais de dois anos, o BNDES mobilizou R$ 14,6 bilhões para a restauração florestal, por meio de financiamentos e aportes em fundos de investimento voltados ao reflorestamento. De acordo com Tereza Campello, diretora socioambiental do banco, os recursos ajudam a estruturar viveiros e formar mão de obra.
Do total, R$ 8,9 bilhões correspondem a financiamentos com recursos do Fundo Clima, do Fundo Amazônia e do próprio BNDES. A estimativa é que esse valor viabilize o reflorestamento de 212 mil hectares e a captura de 68 milhões de toneladas de carbono da atmosfera.
Outros R$ 5,9 bilhões estão sendo empenhados em conjunto com fundos privados, incluindo R$ 1,3 bilhão em capital catalítico do banco.
Campello afirmou que o BNDES considera a restauração florestal um novo setor econômico, com potencial de demanda internacional por créditos de carbono de restauro, madeira certificada e, futuramente, créditos de biodiversidade. A expectativa é que a restauração com espécies nativas alcance relevância semelhante à de setores em que o Brasil já se destaca, como papel e celulose. “Hoje é possível construir um viveiro rapidamente”, disse.








